Viajar para Marte continua sendo uma das ambições mais difíceis da exploração espacial, mas os Estados Unidos querem mudar a maneira como essa jornada poderá acontecer. Uma nova orientação do governo americano determina que a NASA investigue alternativas comerciais para futuras missões tripuladas ao planeta vermelho. A decisão abre espaço para empresas privadas em uma área que, até agora, dependia principalmente de enormes programas financiados pelo Estado.
A NASA terá que olhar para o mercado antes de chegar a Marte

A nova política espacial dos Estados Unidos determina que a NASA avalie opções comerciais para transportar seres humanos até a superfície de Marte, ampliando significativamente o papel que empresas privadas poderão desempenhar na exploração do espaço profundo.
A orientação substitui diretrizes estabelecidas em 2013 e sinaliza uma mudança importante de estratégia. Em vez de concentrar infraestrutura, transporte e desenvolvimento tecnológico exclusivamente em grandes programas governamentais, Washington pretende utilizar cada vez mais as capacidades construídas pela indústria aeroespacial.
O modelo não é totalmente novo. A NASA já trabalha com empresas comerciais no transporte de astronautas e cargas para a órbita terrestre. A diferença está na distância e, principalmente, na complexidade do próximo objetivo.
Marte está em outra categoria.
Uma missão tripulada exige meses de viagem, sistemas extremamente confiáveis de suporte à vida, grandes quantidades de suprimentos e soluções para pousar, sobreviver e posteriormente deixar a superfície marciana.
Ainda assim, o novo documento deixa claro que o governo quer descobrir até onde o modelo comercial pode chegar.
SpaceX e Blue Origin podem ganhar ainda mais espaço

Entre as empresas potencialmente favorecidas pela estratégia estão SpaceX e Blue Origin, duas companhias que já desenvolvem veículos e tecnologias destinados a aumentar a capacidade americana de transporte espacial.
A ideia é incentivar a indústria privada a participar de missões progressivamente mais distantes e complexas, incluindo operações relacionadas à Lua e, futuramente, a Marte.
A política também estabelece uma meta particularmente ambiciosa para a infraestrutura espacial dos Estados Unidos: até 2030, o sistema de transporte espacial do país deverá ter capacidade para sustentar mais de mil lançamentos e reentradas por ano.
Para chegar a esse patamar, o governo pretende ampliar o acesso a instalações federais, estimular novas parcerias entre os setores público e privado e reduzir obstáculos regulatórios considerados desnecessários para a expansão da atividade espacial.
Na prática, isso significaria transformar lançamentos em operações muito mais frequentes do que são atualmente. E essa escala pode ser fundamental caso os Estados Unidos realmente pretendam construir uma presença humana permanente além da órbita terrestre.
Viajar como turista para Marte continua muito distante

A possibilidade de arquiteturas comerciais capazes de transportar pessoas até Marte inevitavelmente faz surgir uma pergunta: estamos nos aproximando do turismo no planeta vermelho?
Ainda não.
A nova política não estabelece qualquer data para o primeiro voo privado tripulado até a superfície marciana. Tampouco significa que uma empresa poderá começar a vender passagens para Marte em um futuro próximo.
Antes disso, existem obstáculos tecnológicos enormes.
Uma nave precisaria manter seus ocupantes vivos e saudáveis durante uma viagem de longa duração, oferecendo proteção, alimentos, água, oxigênio e condições adequadas para enfrentar meses longe da Terra. Também seria necessário transportar equipamentos e suprimentos suficientes para a permanência na superfície.
E chegar é apenas metade do problema.
NASA e empresas aeroespaciais ainda precisam desenvolver ou aperfeiçoar tecnologias para pousar veículos pesados em Marte, manter sistemas funcionando durante a estadia, lançar novamente a partir da superfície marciana e garantir um retorno seguro à Terra.
Tudo isso transforma qualquer ideia de turismo marciano em um cenário de longo prazo.
A grande mudança pode acontecer antes mesmo do primeiro pouso
O aspecto mais importante da nova política talvez não seja imaginar turistas caminhando por Marte, mas perceber como os Estados Unidos pretendem organizar a próxima fase da exploração espacial.
Durante décadas, grandes missões dependeram quase exclusivamente de governos. O crescimento das empresas privadas começou a alterar esse modelo, especialmente no acesso à órbita terrestre.
Agora, Washington parece interessado em levar essa transformação muito mais longe.
Se companhias comerciais conseguirem desenvolver veículos, infraestrutura e sistemas capazes de operar além da Terra, a exploração da Lua e de Marte poderá deixar de depender exclusivamente de missões concebidas e executadas integralmente por agências governamentais.
Isso não significa que a NASA perderá protagonismo. Pelo contrário, a agência poderá atuar como cliente, parceira, coordenadora científica e responsável por estabelecer requisitos para missões realizadas com tecnologias comerciais.
O primeiro viajante privado em Marte ainda pertence a um futuro difícil de prever. Mas a nova orientação americana indica que, quando essa viagem finalmente acontecer, a nave que pousar no planeta vermelho talvez não carregue apenas o logotipo de uma agência espacial.
[Fonte: notigram]