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Crise da cerveja alemã: geração Z bebe cada vez menos e fábricas históricas fecham as portas

A Alemanha, berço da cerveja e do Oktoberfest, vive uma transformação inesperada. O consumo per capita despencou, fábricas centenárias encerram atividades e as versões sem álcool crescem em ritmo acelerado. O que está por trás dessa mudança cultural que ameaça um dos símbolos mais fortes da identidade alemã?
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Tempo de leitura: 3 minutos

Durante séculos, a cerveja foi considerada não apenas uma bebida, mas parte essencial da cultura alemã. Hoje, porém, a indústria enfrenta uma crise inédita. A geração Z, marcada por hábitos mais saudáveis e menor interesse no consumo de álcool, vem transformando radicalmente o mercado. Em 2025, fábricas centenárias anunciaram fechamento, e estatísticas mostram queda histórica na produção.

O caso Lang-Bräu: tradição que não resistiu

Lang Bräu
© X – @BusinessDayNg

A Lang-Bräu, cervejaria da Baviera com 172 anos de história, sobreviveu a guerras mundiais e à divisão da Alemanha. Mas, diante de pressões financeiras insustentáveis, fechou as portas. A empresa estimava precisar de 12 milhões de euros em novos equipamentos, um valor impossível de arcar diante da queda contínua nas vendas.

“Quando as vendas caem e os custos disparam, não há margem para planejar o futuro”, explicou Richard Hope, diretor da companhia, que agora conduz o processo de encerramento.

Custos altos e novos hábitos de consumo

A crise da Lang-Bräu reflete uma tendência mais ampla. Nos últimos anos, inflação, energia cara e mudanças culturais colocaram a indústria contra a parede. O consumo per capita despencou de 126 litros em 2000 para apenas 88 litros em 2025. Segundo o órgão de estatísticas da Alemanha, a produção caiu 6,3% no primeiro semestre deste ano, atingindo o nível mais baixo em décadas.

E a principal explicação está nos jovens. Para a geração Z, a cerveja deixou de ser presença diária e passou a ser consumida em ocasiões pontuais. Muitos preferem versões sem álcool ou simplesmente optam por não beber.

Tendência global: menos álcool, mais saúde

O fenômeno não se restringe à Alemanha. Nos Estados Unidos e em vários países europeus, cresce o número de jovens que evitam álcool, citando saúde, estética e consciência dos riscos. “Nossa geração sabe que o álcool prejudica o corpo”, disse a estudante alemã Carla Schäubler.

Influenciadores de fitness e nutrição reforçam esse discurso, associando a bebida ao ganho de peso e ao impacto negativo no rendimento físico. O resultado é um declínio cultural que atinge diretamente o coração da tradição cervejeira.

Fechamentos e adaptações

Entre 2023 e 2024, 52 fábricas alemãs encerraram atividades — maior número em 30 anos. Outras, para sobreviver, mudam sua estratégia e apostam em bebidas híbridas, como as misturas de cerveja com refrigerantes (Radler) ou versões frutadas e leves.

O que antes era impensável — anúncios de cerveja sem álcool em estações de trem e comerciais de TV — hoje é rotina. A Oktoberfest ainda resiste como símbolo, mas o mercado aponta para outro caminho.

A ascensão da cerveja sem álcool

Embora 90% das vendas ainda correspondam a rótulos alcoólicos, a produção de cerveja sem álcool dobrou em uma década. Marcas como Krumbacher já assumem que o crescimento do setor está nas versões “zero” ou de baixo teor alcoólico.

“O futuro da nossa indústria está nesse segmento, não na cerveja tradicional”, afirmou Peter Lem, porta-voz da empresa.

O desafio para as pequenas cervejarias

Se para grandes indústrias a adaptação é cara, mas viável, para pequenas fábricas é quase impossível. Produzir cerveja sem álcool exige equipamentos que custam cerca de 1 milhão de euros, inacessíveis para negócios familiares.

Muitas tentam interromper a fermentação para reduzir o teor alcoólico, mas o resultado costuma ser uma bebida mais doce, distante do sabor clássico. Além disso, o mercado está saturado: competir com marcas gigantes é tarefa ingrata.

Para a Lang-Bräu, por exemplo, nem mesmo entrar no segmento faria diferença. “Produzir sem álcool não teria salvado nossa fábrica”, disse Hope. Assim, uma tradição de quase dois séculos chega ao fim — e talvez seja apenas uma entre muitas que não resistirão.

 

[ Fonte: Euronews ]

 

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