Uma descoberta recente realizada no maior laboratório de física de partículas do mundo reacendeu uma das perguntas mais fundamentais da ciência: por que existe mais matéria do que antimatéria no universo? O achado, feito no Grande Colisor de Hádrons (LHC), localizado no CERN, pode representar um passo decisivo para desvendar esse enigma e abre a possibilidade de uma “nova física” além do modelo atual.
Um desequilíbrio que explica nossa existência

Após o Big Bang, matéria e antimatéria deveriam ter sido criadas em quantidades iguais. Como essas duas formas se anulam mutuamente, era esperado que o universo tivesse sido destruído nos primeiros instantes de sua existência, restando apenas radiação. No entanto, algo quebrou essa simetria e permitiu que um pequeno excesso de matéria sobrevivesse, formando tudo o que conhecemos: estrelas, planetas, galáxias — e a vida.
Durante o experimento LHCb, cientistas do CERN observaram pela primeira vez uma violação da simetria entre matéria e antimatéria em partículas chamadas bárions — compostas por três quarks e responsáveis pela maior parte da matéria visível do universo. Até então, esse tipo de assimetria só havia sido observado em mésons, partículas formadas por dois quarks.
A teoria de Sájarov ganha força
O físico russo Andrei Sájarov, em 1967, propôs que uma diferença sutil no comportamento de bárions e antibárions — chamada violação da simetria carga-paridade (CP) — poderia ser a chave para explicar o predomínio da matéria. Agora, o experimento do CERN confirma pela primeira vez esse comportamento em bárions, com uma diferença de 2,45% nos padrões de decaimento.
A análise se baseou em mais de 80 mil eventos coletados desde 2011. Em alguns casos, a diferença de comportamento superou 5%, reforçando a hipótese de que esse pequeno desequilíbrio pode ter garantido a sobrevivência da matéria no universo.
Além do Modelo Padrão

O Modelo Padrão da física tem sido a base para compreender as partículas fundamentais e suas interações. No entanto, ele não consegue explicar por completo a assimetria entre matéria e antimatéria. A nova descoberta ultrapassa as previsões desse modelo, indicando que outras forças ou partículas desconhecidas podem estar envolvidas.
Segundo a física teórica Pilar Hernández, comparar os dados experimentais com o que a teoria prevê é essencial para entender se estamos diante de algo realmente novo. Cientistas especulam que essas novas pistas podem até mesmo estar relacionadas a componentes misteriosos do cosmos, como a matéria escura e a energia escura, que juntas compõem 95% do universo.
Um novo capítulo na física
A descoberta no CERN pode marcar o início de uma nova era na física de partículas. A violação da simetria CP em bárions aponta para fenômenos ainda não compreendidos, e pesquisadores já trabalham para ampliar a capacidade de detecção no LHC. O colisor será aprimorado para multiplicar o número de colisões, o que pode revelar ainda mais sinais dessa assimetria — ou até novas partículas.
Para Javier Fernández, professor da Universidade de Oviedo, entender por que somos feitos de matéria e não de antimatéria é uma peça central no quebra-cabeça da existência. A expectativa é de que, com experimentos futuros, novas evidências ajudem a completar essa imagem.
O papel do CERN na busca pelo invisível
Fundado em 1954 e sediado em Genebra, na Suíça, o CERN é uma referência global em pesquisa de física de partículas. Seu maior instrumento, o Grande Colisor de Hádrons, possui 27 km de túneis e é capaz de acelerar partículas a velocidades próximas à da luz. Foi nesse laboratório que surgiu a World Wide Web, criada para facilitar a comunicação entre cientistas.
Com milhares de pesquisadores de mais de 100 países, o CERN representa a ciência colaborativa e a busca por respostas às perguntas mais profundas sobre o universo.
[ Fonte: Infobae ]