Um gigantesco depósito de água doce oculto sob o leito marinho da costa leste dos Estados Unidos acaba de ganhar novas evidências científicas. Segundo pesquisadores, o reservatório pode conter volume suficiente para abastecer uma cidade do porte de Nova York durante aproximadamente 800 anos. Embora a descoberta desperte interesse pelo enorme potencial hídrico, os cientistas deixam claro que o objetivo, neste momento, não é explorar o aquífero, mas compreender como ele se formou, qual é sua extensão e quais características geológicas permitiram sua preservação por dezenas de milhares de anos.
Uma expedição confirmou a existência do reservatório

A confirmação ocorreu durante a Expedition 501, uma missão científica realizada ao longo de três meses na costa de Massachusetts.
Durante a expedição, pesquisadores coletaram cerca de 50 mil litros de água em três pontos localizados entre 30 e 50 quilômetros da costa, nas proximidades das ilhas de Nantucket e Martha’s Vineyard.
Para alcançar o reservatório, a equipe perfurou aproximadamente 400 metros abaixo do fundo do oceano. As sondagens revelaram uma espessa camada de sedimentos saturada por água doce, localizada abaixo de outra camada com água mais salina.
Separando essas duas regiões existe uma barreira natural composta por argila e silte, que impede que a água do mar se misture facilmente ao aquífero subterrâneo, preservando sua baixa salinidade ao longo de milhares de anos.
Embora indícios dessa água subterrânea já tivessem sido observados nas décadas de 1960 e 1970 pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), somente agora foi possível obter evidências diretas sobre sua composição e origem.
A água ficou presa durante a última Era do Gelo
As análises químicas realizadas até agora indicam que o reservatório começou a se formar há cerca de 20 mil anos, durante o último período glacial.
Naquela época, enormes mantos de gelo cobriam grande parte do nordeste da América do Norte. O peso dessas geleiras exercia enorme pressão sobre o terreno, empurrando a água resultante do degelo para o subsolo.
Essa água acabou aprisionada entre camadas de sedimentos antes que o nível do mar subisse novamente ao fim da glaciação.
Os pesquisadores também acreditam que parte da reserva pode ter recebido contribuição da água da chuva infiltrada em regiões próximas às antigas frentes glaciais.
Por outro lado, uma hipótese considerada anteriormente foi praticamente descartada. Alguns cientistas sugeriam que a água pudesse ter migrado de áreas montanhosas próximas ao litoral. No entanto, a topografia da região da Nova Inglaterra não favorece esse tipo de infiltração em larga escala.
A salinidade surpreendeu os pesquisadores
Um dos aspectos mais interessantes da descoberta é o baixo teor de sal encontrado em boa parte do reservatório.
No ponto mais próximo da costa, a concentração de sal registrada foi de aproximadamente uma parte por mil — limite geralmente considerado adequado para consumo humano após tratamento mínimo.
À medida que o reservatório avança em direção ao oceano, a salinidade aumenta gradualmente, mas permanece muito inferior à da água do mar.
Esses resultados reforçam a hipótese de que se trata de um gigantesco aquífero predominantemente formado por água doce preservada desde o fim da última glaciação.
Os pesquisadores continuam realizando análises de radiocarbono, isótopos e gases nobres para determinar com maior precisão a idade da água e reconstruir sua história geológica.
O objetivo não é explorar a água, mas compreender o sistema

Apesar da dimensão impressionante da descoberta, os cientistas ressaltam que ainda é cedo para pensar em utilizar esse reservatório como fonte de abastecimento.
A equipe segue estudando sua extensão exata, a porosidade dos sedimentos, a circulação da água subterrânea e até os microrganismos que vivem nesse ambiente isolado há milhares de anos.
Segundo Brandon Dugan, codiretor científico da expedição, compreender o funcionamento desse sistema é mais importante do que discutir imediatamente sua exploração.
O conhecimento adquirido poderá servir de base para decisões futuras caso o reservatório venha a ser considerado uma alternativa em cenários de escassez hídrica.
Uma descoberta que pode influenciar o futuro da gestão da água
Além de revelar um dos maiores depósitos de água doce já identificados sob ambientes oceânicos, o estudo amplia o entendimento sobre a formação de aquíferos costeiros em escala continental.
Os pesquisadores acreditam que sistemas semelhantes podem existir em outras regiões do planeta que também passaram por intensos períodos glaciais.
Em um cenário de mudanças climáticas e crescente pressão sobre os recursos hídricos, compreender como esses reservatórios se formam, permanecem preservados e interagem com o oceano pode ser fundamental para o planejamento das futuras estratégias de gestão da água.
Mais do que representar uma nova fonte potencial de abastecimento, a descoberta oferece uma oportunidade única para investigar processos geológicos que permaneceram escondidos sob o fundo do mar durante aproximadamente 20 mil anos.
[ Fonte: La República ]