Com a estreia do novo filme do Superman, não demorou para que o herói mais icônico dos quadrinhos fosse arrastado para o campo de batalha favorito da política americana: a guerra cultural. Se por anos ele conseguiu escapar do centro desses conflitos, agora a polarização não perdoou nem o kryptoniano mais amado do planeta.
Da força para o marketing político
Em um movimento típico da máquina de apropriação simbólica da extrema direita, a Casa Branca de Donald Trump publicou uma montagem com o presidente como Superman, voando sob o lema “Truth, Justice, and the American Way” (Verdade, Justiça e o Modo Americano). A publicação ocorre justamente na semana de estreia do longa dirigido por James Gunn, e ecoa outras tentativas anteriores de usar personagens da cultura pop para fins eleitorais — como os memes de Game of Thrones na campanha de 2018.
A ironia? A própria ala trumpista frequentemente ataca o que chama de “mídia woke” — termo usado para criticar obras com diversidade e mensagens progressistas. Ainda assim, não resistem à tentação de se associar aos mesmos símbolos que tentam desqualificar.
Superman: símbolo imigrante, esperança e otimismo
Parte do debate começou quando canais como a Fox News tentaram negar que Superman fosse um imigrante, apesar do personagem ser literalmente um alienígena vindo de outro planeta, criado como uma metáfora clara da experiência do migrante que chega aos EUA em busca de um novo lar.
Ao longo das décadas, Superman representou mais do que força: ele é o herói que acredita no bem comum, na empatia e na justiça — conceitos que, em tempos de discursos autoritários e nacionalistas, se tornaram politicamente carregados. A tentativa de Trump de se associar à imagem do herói escancara esse paradoxo: adotar sua força e popularidade, ao mesmo tempo em que rejeita seus valores centrais.
James Gunn acerta o tom — e incomoda
A nova adaptação do Superman, escrita e dirigida por James Gunn, vem sendo elogiada por devolver ao personagem seu senso de esperança e humanidade, distanciando-se das versões mais sombrias vistas em Man of Steel ou nos jogos da franquia Injustice. Para muitos fãs, a nova leitura marca o renascimento do universo cinematográfico da DC, com um herói mais próximo do ideal original.
O timing da publicação de Trump também pode ser lido como um recado direto a Gunn, que já expressou abertamente críticas ao ex-presidente e ao extremismo branco. Mesmo quando os paralelos com conflitos reais — como a guerra em Gaza — surgem nas discussões sobre o filme, Gunn afirma que foram não intencionais, mas o público não deixa de conectar a arte com o momento político.
Entre o ícone e o oportunismo
No fim, a apropriação de figuras culturais populares como Superman pela extrema direita revela mais sobre a velocidade e superficialidade do marketing político do que sobre algum alinhamento ideológico real. O Superman de Gunn, mais humano e idealista, não serve ao projeto de poder de quem busca impor medo e adoração cega — e talvez seja por isso que o contraste fique tão evidente.
A nova fase do herói, marcada por brilho, empatia e otimismo, promete continuar em alta nas próximas semanas — mesmo que a versão voadora de Trump já tenha caído no ridículo.