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Ciência

Durante anos acreditamos que recipientes próprios para micro-ondas eram seguros: agora cientistas descobriram que eles podem liberar bilhões de microplásticos nos alimentos

Um novo estudo revelou um fenômeno invisível que acontece sempre que um recipiente plástico vai ao micro-ondas. Embora o material não derreta nem apresente sinais aparentes de desgaste, o aquecimento repetido pode fragmentar suas estruturas internas e liberar uma enorme quantidade de partículas microscópicas diretamente na comida.
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Tempo de leitura: 4 minutos

A cena é familiar em milhões de lares. Você aquece a refeição no micro-ondas, retira o recipiente e percebe algo curioso: o pote está escaldante, enquanto a comida parece apenas morna. Durante décadas, essa diferença foi tratada como um detalhe sem importância. Agora, pesquisadores da Universidade de Nebraska-Lincoln mostram que ela pode esconder um processo físico muito mais complexo — e potencialmente preocupante.

Publicado na revista Environmental Science & Technology, o estudo investigou como recipientes plásticos classificados como “seguros para micro-ondas” se comportam após ciclos de aquecimento. Os resultados indicam que, mesmo dentro das normas atuais de segurança, esses materiais podem liberar bilhões de partículas de microplásticos e nanoplásticos.

O micro-ondas aquece a água, não o recipiente

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© Pexels

Para entender o fenômeno, é preciso voltar ao funcionamento básico do aparelho.

Os micro-ondas emitem ondas eletromagnéticas com frequência de aproximadamente 2,45 gigahertz. Essas ondas interagem principalmente com moléculas de água, fazendo-as vibrar rapidamente. Essa movimentação gera calor.

É por isso que alimentos ricos em água aquecem com facilidade. O mesmo ocorre, em menor grau, com pratos de cerâmica, que costumam absorver pequenas quantidades de umidade em sua estrutura porosa.

O plástico, por outro lado, contém pouca ou nenhuma água. Ainda assim, ele não é totalmente indiferente à radiação. As ondas eletromagnéticas interagem com suas cadeias de polímeros, provocando um tipo diferente de estresse físico e térmico no material.

O resultado visível é conhecido por qualquer pessoa que já utilizou um recipiente plástico no micro-ondas: muitas vezes o pote fica mais quente do que a própria refeição. Mas os efeitos invisíveis são os que chamaram a atenção dos cientistas.

Micro-ondas não tornam a comida radioativa

Antes de avançar, os pesquisadores destacam um equívoco comum.

Os micro-ondas não produzem radiação ionizante. Eles não têm relação com radioatividade, energia nuclear ou contaminação radioativa dos alimentos.

O aparelho funciona como uma espécie de gaiola eletromagnética fechada. As ondas permanecem confinadas em seu interior graças à estrutura metálica e à malha presente na porta. Além disso, a energia envolvida é semelhante à utilizada em transmissões de rádio e telecomunicações, apenas em uma frequência diferente.

Em outras palavras, o problema não está na radiação em si, mas na forma como ela interage com determinados materiais ao longo do tempo.

O desgaste acontece mesmo quando o plástico parece intacto

A equipe liderada por Kazi Albab Hussain investigou justamente esse processo.

Segundo os pesquisadores, a exposição repetida às micro-ondas gera um estresse contínuo nas cadeias moleculares que formam os polímeros plásticos. Com o passar do tempo, essas ligações começam a enfraquecer e fragmentos extremamente pequenos se desprendem da superfície do material.

O mais importante é que isso pode ocorrer mesmo quando o recipiente continua aparentemente perfeito, sem deformações, rachaduras ou sinais visíveis de deterioração.

Diferentemente de estudos anteriores, que analisavam principalmente a migração de substâncias químicas para os alimentos, esta pesquisa focou na liberação física de partículas sólidas provenientes do próprio recipiente.

Bilhões de partículas em um único aquecimento

Para medir esse fenômeno, os cientistas utilizaram microscopia de campo escuro, técnica capaz de detectar partículas muito menores do que o limite da visão humana.

Os resultados impressionaram.

Dependendo das condições testadas, recipientes fabricados em polipropileno e em bioplástico CPLA liberaram até 4,22 bilhões de partículas por centímetro quadrado durante um único ciclo de aquecimento.

Os pesquisadores também avaliaram possíveis impactos biológicos dessas partículas. Em laboratório, células renais embrionárias humanas da linhagem HEK-293 foram expostas a diferentes concentrações dos microplásticos e nanoplásticos coletados.

Nas maiores concentrações, houve redução significativa da viabilidade celular. Os resultados sugerem que as partículas menores, especialmente os nanoplásticos, podem apresentar maior potencial de interação com tecidos biológicos.

O que isso significa para quem usa micro-ondas todos os dias?

Especialistas alertam: hábito comum no micro-ondas pode ser perigoso
© Pexels

Os próprios autores fazem uma ressalva importante: os testes foram realizados em culturas celulares, não em seres humanos.

Até o momento, não existe evidência clínica capaz de demonstrar que o uso doméstico comum de recipientes plásticos no micro-ondas produz os mesmos efeitos observados em laboratório. A ciência ainda busca compreender quanto dessas partículas consegue atravessar as barreiras intestinais, entrar na corrente sanguínea e se acumular em órgãos.

Mesmo assim, uma conclusão já parece clara: a liberação de microplásticos durante o aquecimento é real, mensurável e pode ser reduzida.

Por isso, especialistas recomendam priorizar recipientes de vidro ou cerâmica sempre que possível. Não porque os potes classificados como próprios para micro-ondas sejam necessariamente perigosos, mas porque as normas que certificam esses produtos foram criadas antes que a fragmentação em escala nanométrica se tornasse uma preocupação científica relevante.

Enquanto estudos de longo prazo tentam esclarecer o impacto dessas partículas na saúde humana, uma simples mudança de hábito pode reduzir significativamente uma fonte de exposição que, até pouco tempo atrás, passava completamente despercebida.

 

[ Fonte: Muy Interesante ]

 

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