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Ciência

El Niño não provoca apenas desastres: seus efeitos podem fazer até um deserto florescer

Associado a enchentes e secas extremas, o El Niño também pode desencadear transformações inesperadas na natureza. Seus efeitos revelam uma relação pouco conhecida entre clima e biodiversidade.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Quando o El Niño aparece nas previsões meteorológicas, a preocupação costuma ser imediata. Chuvas intensas, rios transbordando, estiagens prolongadas e prejuízos econômicos estão entre suas consequências mais conhecidas. Entretanto, existe outro lado desse fenômeno climático que raramente recebe a mesma atenção. Em determinadas regiões, as alterações provocadas pelo El Niño podem criar condições essenciais para a reprodução de animais, a recuperação de ecossistemas e até o surgimento de paisagens que parecem impossíveis.

O mesmo fenômeno que provoca enchentes também pode favorecer milhões de peixes

O El Niño acontece quando as águas superficiais do Pacífico equatorial central e oriental ficam mais quentes do que o habitual, modificando a circulação atmosférica e os padrões de chuva em diferentes regiões do planeta.

Segundo a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), o fenômeno ocorre de maneira irregular, geralmente em intervalos de dois a sete anos.

Na América do Sul, seus efeitos podem ser especialmente importantes para os grandes rios.

Na bacia do rio Paraná, por exemplo, as cheias frequentemente associadas a períodos de El Niño desempenham um papel fundamental na reprodução de diversas espécies de peixes.

O pesquisador Pablo Scarabotti, do Conicet e da Universidade Nacional do Litoral, na Argentina, explica que espécies como dourado, surubim e sábalo dependem das condições criadas pelas inundações para completar etapas importantes de seus ciclos de vida.

Quando o nível do rio aumenta na época adequada, a água alcança lagoas, áreas alagadas e canais secundários.

Esses ambientes funcionam como verdadeiros berçários naturais.

Neles, larvas e peixes jovens encontram alimento, vegetação e proteção contra predadores.

Após períodos prolongados de seca ou níveis baixos dos rios, essas cheias podem ser decisivas para a recuperação das populações.

Um deserto pode se transformar em um imenso jardim depois das chuvas

Outro efeito impressionante pode ser observado no deserto do Atacama, no Chile, considerado um dos lugares mais secos do planeta.

Em determinadas ocasiões, chuvas excepcionais fazem surgir um fenômeno conhecido como deserto florido.

Sementes que permaneceram durante anos sob o solo árido encontram umidade suficiente para germinar.

Em pouco tempo, áreas aparentemente sem vida ficam cobertas por flores, transformando completamente a paisagem.

O Jardim Botânico Real de Edimburgo destaca que algumas das grandes florações do Atacama estiveram relacionadas a episódios de El Niño, incluindo os registrados em 1997 e 2015.

A transformação não beneficia apenas as plantas.

O surgimento da vegetação também oferece recursos para insetos e outros animais, movimentando temporariamente toda a cadeia ecológica.

Entretanto, nem toda floração do Atacama é causada exclusivamente pelo El Niño.

Outras condições meteorológicas também podem produzir as chuvas necessárias para despertar as sementes.

El Niño também pode reduzir a formação de furacões em determinadas regiões

Existe ainda uma consequência menos visível, mas potencialmente importante para milhões de pessoas.

Durante episódios de El Niño, a atividade de furacões no oceano Atlântico tende a diminuir.

Isso acontece porque as alterações na circulação atmosférica frequentemente aumentam o cisalhamento vertical do vento, ou seja, a diferença de velocidade ou direção dos ventos entre diferentes altitudes.

Essas condições dificultam a organização e o fortalecimento de ciclones tropicais.

Segundo a NOAA, esse mecanismo é um dos fatores considerados nas previsões sazonais de furacões.

Entretanto, o efeito não é igual em todos os oceanos.

No Pacífico oriental, as condições associadas ao El Niño podem favorecer uma atividade maior de ciclones.

Da mesma forma, chuvas que ajudam a recuperar reservas de água em regiões secas também podem provocar inundações e deslizamentos quando se tornam excessivas.

Portanto, os benefícios dependem da localização, da intensidade do fenômeno e das características de cada ecossistema.

O lado menos conhecido do El Niño revela como a natureza depende dos extremos

Embora o El Niño represente riscos importantes para populações humanas, seus efeitos ecológicos mostram que nem toda alteração climática produz consequências exclusivamente negativas.

Em alguns ambientes, períodos de cheia são necessários para conectar habitats, transportar nutrientes e permitir a reprodução de espécies.

Em outros, chuvas raras podem despertar sementes adormecidas durante anos.

Isso não significa que os desastres provocados pelo fenômeno sejam compensados por seus benefícios ambientais.

Também não significa que todas as espécies se beneficiem dessas mudanças.

O ponto central é que o El Niño redistribui calor e precipitações pelo planeta, criando situações prejudiciais em algumas regiões e oportunidades ecológicas em outras.

Essa dualidade ajuda a explicar por que compreender os ciclos climáticos é fundamental não apenas para prevenir desastres, mas também para proteger a biodiversidade.

Afinal, a mesma chuva capaz de inundar uma cidade pode, em outro lugar, permitir que uma nova geração de peixes sobreviva ou que um deserto inteiro floresça.

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