A história de Yara Barros com as onças começou por acaso, mas virou uma trajetória de paixão e transformação. Especialista em aves, ela assumiu em 2018 o desafio de liderar um projeto sobre grandes felinos no Parque Nacional do Iguaçu. O encontro com Croissant — uma das onças monitoradas na região — foi o ponto de virada. Hoje, Yara é referência na proteção da espécie e símbolo de como o conhecimento pode vencer o medo.
Uma trajetória guiada pela conservação

Com mais de três décadas de experiência na proteção da fauna brasileira, Yara iniciou sua carreira estudando a ararinha-azul, espécie considerada extinta na natureza. Viveu por quatro anos no sertão da Bahia, dedicando-se a pesquisas sobre o último exemplar macho conhecido na época. Atuou no Ibama, no ICMBio e foi diretora técnica do Parque das Aves, em Foz do Iguaçu.
Mas foi ao aceitar a missão de coordenar um projeto voltado à conservação das onças-pintadas que sua vida mudou. Sem experiência com mamíferos, ela se viu diante do maior felino das Américas. O contato com Croissant, durante sua primeira campanha de monitoramento, marcou o início de um vínculo profundo com a espécie.
A força do “Onças do Iguaçu”
Ao assumir o projeto, Yara percebeu a necessidade de criar uma identidade que dialogasse melhor com o público. O antigo nome, “Carnívoros do Iguaçu”, soava técnico e pouco atrativo. “Carnívoro” não conectava com as pessoas — soava ameaçador. Nasceu então o “Onças do Iguaçu”, com o objetivo de humanizar a narrativa e reforçar a ideia de coexistência entre pessoas, animais e floresta.
Hoje, o projeto realiza ações de monitoramento com colares de GPS, coleta de amostras e estudo do comportamento das onças e suas presas. Mais do que ciência, há um esforço contínuo de envolvimento com as comunidades vizinhas ao parque, que abrangem dez municípios. Em parceria com essas populações, a equipe combate conflitos envolvendo os felinos e animais domésticos, muitas vezes alvo das onças.
Engajamento e educação como pilares
Yara entende que grande parte do conflito entre humanos e onças nasce do medo — um medo alimentado pela desinformação. Por isso, o projeto aposta em ações de educação ambiental, visitas a escolas, feiras e eventos comunitários. O objetivo é substituir o medo pelo encantamento, despertar o interesse e gerar empatia pela espécie.
Um dos destaques do projeto é o programa de renda alternativa para moradores locais, como o coletivo de crocheteiras que confecciona amigurumis inspirados nas onças. A venda desses produtos ajuda a sustentar famílias e a fortalecer a relação entre a comunidade e a conservação. “Quando você compra um artesanato, está empoderando uma mulher que cuida das nossas onças”, diz Yara.
A equipe de seis profissionais é movida por paixão e comprometimento. Juntas, essas pessoas constroem pontes entre ciência, sociedade e floresta. O reconhecimento veio com o Whitley Award, recebido por Yara em Londres, acompanhado de 50 mil libras para investir no projeto. O prêmio é um dos mais prestigiados do mundo na área ambiental.
Desafios e conquistas no dia a dia
Apesar das vitórias, os obstáculos são constantes. O maior deles, segundo Yara, ainda é o medo. Embora o risco real de ataques a pessoas seja extremamente baixo, o temor é amplificado por mitos e histórias passadas. Esse “risco percebido” leva muitos moradores a verem a onça como ameaça, e não como parte essencial do equilíbrio ecológico.
Por isso, o projeto atua diretamente em propriedades rurais onde ocorrem conflitos. Anualmente, são feitas cerca de 400 visitas técnicas. A equipe instala cercas, sinos, luzes e câmeras para reduzir os riscos de novos ataques. O trabalho inclui também manuais de boas práticas e acompanhamento individualizado por até um ano, sempre com o objetivo de proteger tanto as onças quanto o sustento das famílias.
Segundo Yara, após oito anos de atuação intensa, já é possível notar mudanças na percepção local. “O imaginário da onça como um monstro à espreita está sendo substituído por conhecimento e respeito. Queremos levar essa nova visão para o maior número de corações possível”, afirma.
Uma nova forma de conviver com o desconhecido
Mais do que proteger uma espécie, o trabalho de Yara Barros e sua equipe é sobre transformar relações. É sobre criar pontes entre o humano e o selvagem, entre o medo e a admiração. Ao mostrar que as onças podem conviver com as pessoas sem conflitos, ela também ensina que preservar a natureza é, acima de tudo, um ato de empatia.
E se hoje as onças ainda despertam receio, a missão do “Onças do Iguaçu” é clara: que um dia, onde houver floresta, haja também orgulho em dividi-la com seus verdadeiros habitantes.
[Fonte: Terra]