Enquanto as tensões comerciais com os Estados Unidos se agravam, um movimento sutil vindo da China chama a atenção.
Uma feira estratégica em tempos de incerteza

Na mesma quinta-feira em que se intensificaram os atritos entre Brasil e Estados Unidos, a embaixada da China no Brasil publicou nas redes sociais um convite às empresas brasileiras: participar da China International Import Expo (CIIE), marcada para novembro, em Xangai. Não por acaso, o gesto surge em meio à elevação das tarifas americanas sobre produtos brasileiros, o que pode redirecionar o foco do comércio exterior nacional.
A CIIE, primeira feira mundial dedicada exclusivamente à importação, movimentou mais de US$ 80 bilhões em 2023 e, este ano, ocorre num contexto em que a China busca reforçar sua imagem como compradora global. O Brasil, presente desde a primeira edição, vê neste evento uma oportunidade de fortalecer laços comerciais com sua maior parceira econômica desde 2009.
Além de alimentos e commodities agrícolas, a feira abrange setores como tecnologia, saúde, equipamentos médicos e indústria automobilística. As inscrições seguem abertas até 31 de outubro, e o evento será realizado de 5 a 10 de novembro.
Oportunidade além da retaliação americana
Para especialistas, o convite chinês não oferece uma solução imediata para o impacto das tarifas dos Estados Unidos, mas sinaliza um caminho alternativo e estratégico. Segundo Larissa Wachholz, especialista em relações comerciais com a Ásia, o desafio brasileiro é justamente inserir produtos de maior valor agregado na pauta de exportação com a China — algo que já é mais frequente nas trocas com os Estados Unidos, mesmo que em volume menor.
A feira, portanto, surge como uma “janela” para explorar novos mercados e ampliar o alcance de produtos brasileiros que vão além das matérias-primas. Larissa destaca que o Brasil precisa estimular a diversificação de seus parceiros comerciais e investir em produtos com maior apelo internacional, adaptando-se às exigências de consumidores como os chineses.
Uma resposta da China ao cenário internacional
Criada para rebater as críticas de que a China seria apenas exportadora, a CIIE também é parte da estratégia chinesa de fortalecer seu consumo interno e ampliar as importações. O evento se insere num esforço maior do país para demonstrar abertura ao comércio internacional em tempos de protecionismo global.
O China Daily, jornal estatal chinês, ressaltou recentemente a presença ativa dos países do Brics na feira, destacando o compromisso do bloco com o desenvolvimento conjunto. Para o Brasil, a CIIE pode funcionar como plataforma para exibir sua capacidade produtiva e conquistar espaços em um dos mercados mais disputados do planeta.
Ainda que acessar novos mercados envolva desafios como adaptação de produtos, investimento em marketing e financiamento à exportação, o atual momento de instabilidade pode ser propício para um movimento estratégico. O convite chinês, discreto mas potente, sugere que talvez seja hora de o Brasil olhar mais para o Oriente.
[Fonte: O globo]