Os Estados Unidos voltaram a se colocar como mediadores ativos nas negociações sobre a guerra na Ucrânia, reacendendo expectativas de um possível acordo. Conversas recentes do presidente americano com os líderes russo e ucraniano indicaram algum avanço, mas também deixaram claro que os obstáculos mais sensíveis permanecem. A seguir, entenda os principais pontos que ainda travam qualquer entendimento definitivo.
Um cenário de avanços cautelosos e promessas sem prazo

No fim de semana, Donald Trump conversou por telefone com Vladimir Putin e, horas depois, encontrou-se com Volodymyr Zelensky na Flórida. O tom público foi de otimismo moderado.
Apesar de afirmar que as conversas estão “indo muito bem”, Trump admitiu que persistem “questões muito espinhosas” e evitou estabelecer prazos — um contraste com a promessa feita durante a campanha de 2024, quando disse que encerraria o conflito em 24 horas, caso eleito.
Segundo autoridades americanas, russas e ucranianas, houve progresso no diálogo, mas sem consenso sobre os pontos centrais que definem os termos da paz.
O impasse em torno da usina nuclear de Zaporizhzhia
Um dos nós mais delicados envolve o futuro da Usina Nuclear de Zaporizhzhia, a maior da Europa, atualmente sob controle russo. A instalação é estratégica não apenas pela geração de energia, mas também pelo risco permanente que representa em meio ao conflito.
Zelensky defendeu recentemente uma proposta de gestão conjunta entre Ucrânia e Estados Unidos. Pelo plano, metade da eletricidade produzida ficaria com a Ucrânia, enquanto o restante seria administrado pelos americanos. Moscou, até agora, não endossou formalmente a ideia.
Após o encontro com o líder ucraniano, Trump elogiou Putin pela condução da usina e afirmou que o presidente russo estaria “trabalhando com a Ucrânia” para reativar o complexo. A declaração foi vista com cautela por analistas europeus, que temem que a usina se torne moeda de troca política em vez de um ativo neutro sob supervisão internacional.
A questão territorial: o maior obstáculo à paz
Se a usina é um problema técnico e estratégico, a concessão de territórios é o impasse político mais explosivo. A Rússia reivindica como suas as regiões de Donbas, Zaporizhzhia e Kherson, embora a comunidade internacional continue reconhecendo essas áreas como parte da Ucrânia.
Trump reconheceu publicamente que o tema territorial é o maior entrave e sugeriu que Kiev deveria considerar concessões agora para evitar perdas ainda maiores no futuro. A posição ecoa argumentos do Kremlin, que afirmou nesta segunda-feira que a retirada de tropas ucranianas de partes do Donbas seria condição essencial para a paz.
Zelensky, por sua vez, demonstrou alguma flexibilidade política, ao afirmar que qualquer acordo poderia ser submetido a um referendo nacional — exigência prevista na Constituição ucraniana para mudanças de fronteiras. No entanto, ele condicionou a votação a um cessar-fogo de ao menos 60 dias, algo que Moscou rejeita.
Trégua temporária ou paz definitiva?

Para o Kremlin, uma trégua curta apenas prolongaria o conflito. Segundo Yuri Ushakov, assessor de Putin, tanto o presidente russo quanto Trump compartilham a visão de que pausas temporárias não resolvem o problema de fundo e apenas adiam novos confrontos.
Enquanto isso, estimativas russas indicam que as forças de Moscou controlam cerca de 20% do território ucraniano, incluindo a Crimeia — anexada em 2014 —, grande parte de Donbas e áreas significativas de Zaporizhzhia e Kherson, além de porções menores de outras regiões.
Um acordo ainda distante
Apesar da retomada do diálogo em alto nível, o fim da guerra na Ucrânia segue condicionado a decisões politicamente dolorosas e tecnicamente complexas. Sem consenso sobre território, segurança nuclear e o formato de um cessar-fogo, as negociações avançam, mas em terreno instável — exatamente como descreveu Trump: espinhoso, difícil e longe de uma solução imediata.
[ Fonte: CNN Brasil ]