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O que Putin exige para encerrar a guerra na Ucrânia

As negociações avançam, as frentes de batalha seguem ativas e a sensação é de impasse. Enquanto diplomatas se reúnem em Berlim, cresce a pergunta que orienta todas as outras: o que, afinal, Vladimir Putin quer para aceitar o fim da guerra na Ucrânia — e quem ainda tem poder para mudar esse cálculo?
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Tempo de leitura: 3 minutos

Um líder confiante e sem sinais de recuo

Vladimir Putin não esconde a segurança com que encara o momento atual. O presidente russo demonstra confiança tanto pelo avanço lento, porém constante, das tropas no leste da Ucrânia quanto pela melhora no diálogo com os Estados Unidos. Analistas afirmam que, nesse cenário, ele não vê incentivo para ceder.

As exigências centrais seguem as mesmas: que a Ucrânia abra mão dos territórios ocupados, incluindo áreas ainda sob controle em Donetsk; que esses territórios sejam reconhecidos internacionalmente como parte da Rússia; que o Exército ucraniano seja reduzido a um nível considerado inofensivo; e que a adesão à Otan seja descartada de forma definitiva.

Trump, pressão e o risco de abandono

Um dos cenários mais debatidos envolve o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Ele pode tentar impor um cessar-fogo à Ucrânia com concessões territoriais e sem garantias robustas de segurança — algo amplamente rejeitado pela população ucraniana.

Caso Kiev resista ou Moscou rejeite os termos, Trump já sinalizou que pode se afastar do conflito. Isso incluiria suspender o compartilhamento de inteligência, crucial para detectar drones russos e atingir alvos estratégicos. Para Putin, esse afastamento americano reforçaria a percepção de que o tempo joga a seu favor.

A Europa pode ir além do discurso?

Diante da incerteza sobre os EUA, a Europa discute seus próprios limites. Atualmente, líderes europeus se preparam para um possível cessar-fogo, com planos de força internacional de dissuasão e recursos para reconstrução da Ucrânia.

Mas há quem defenda outra abordagem: assumir que a guerra pode durar mais 15 ou 20 anos. Isso significaria ampliar o apoio militar, fortalecer a defesa aérea ucraniana e até considerar a presença de tropas europeias no oeste do país. O receio de escalar o conflito, porém, tem freado essas iniciativas.

Para especialistas como Keir Giles, do Chatham House, essa cautela é ilusória. Segundo ele, apenas a presença clara e determinada de forças ocidentais poderia realmente conter a agressão russa.

Sanções apertam, mas não mudam o cálculo

As sanções econômicas continuam sendo uma das principais armas do Ocidente. A economia russa sente o impacto: inflação elevada, juros altos, crescimento mais lento e déficits crescentes. Ainda assim, o Kremlin encontrou formas de contornar as restrições, como o uso de “navios fantasmas” para exportar petróleo.

Especialistas afirmam que, sem um embargo total ao petróleo russo e sanções secundárias rigorosas contra quem ainda compra essa energia, o efeito seguirá limitado. Até agora, as dificuldades econômicas não foram suficientes para alterar a estratégia de Putin.

O fator Ucrânia: soldados, desgaste e ataques

Do lado ucraniano, a situação é complexa. O país mantém o segundo maior Exército da Europa e uma força altamente tecnológica, mas enfrenta dificuldades para sustentar uma linha de frente de cerca de 1.300 quilômetros. O desgaste humano é evidente, e as deserções aumentam.

Kiev evita ampliar o alistamento para jovens mais novos, por razões demográficas. Ainda assim, intensificou ataques com drones e mísseis contra alvos estratégicos dentro da Rússia, atingindo refinarias e infraestrutura militar. Esses ataques causam danos, mas, segundo analistas, não são suficientes sozinhos para levar Putin à mesa de negociações.

Diplomacia e a influência da China

Apesar do cenário duro, alguns veem espaço para uma saída diplomática. Um acordo que permita a ambos os lados reivindicar vitória — sem reconhecimento formal de fronteiras e com zonas desmilitarizadas — poderia ser aceito por Moscou, desde que mediado com peso real dos EUA.

Há ainda a China. Xi Jinping é um dos poucos líderes capazes de influenciar Putin. Se Pequim concluir que a guerra deixou de servir a seus interesses, pode pressionar Moscou de forma decisiva. Por ora, porém, a China parece confortável com um Ocidente dividido e distraído.

Putin aposta no desgaste do tempo. Quanto mais a guerra se prolonga, avaliam analistas, mais ele acredita que a Ucrânia enfraquece e seus aliados se fragmentam. A questão que permanece é simples e inquietante: quem, se é que alguém, conseguirá mudar essa aposta antes que o custo humano aumente ainda mais.

[Fonte: Correio Braziliense]

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