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Ciência

Estrelas mil vezes maiores que o Sol podem ter moldado os primeiros aglomerados da Via Láctea, revela estudo

Pesquisadores descobriram que algumas estrelas colossais — até mil vezes mais massivas que o Sol — podem ter deixado uma marca química permanente nos aglomerados globulares, os sistemas estelares mais antigos da galáxia. O estudo ajuda a explicar mistérios de composição que intrigam astrônomos há décadas e redefine a origem da Via Láctea.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Os aglomerados globulares são cápsulas do tempo cósmico: agrupamentos densos que guardam a história química do universo. Mas por que suas estrelas são tão diferentes entre si? Um novo estudo internacional, liderado pelo astrofísico Mark Gieles, da Universidade de Barcelona, aponta uma resposta surpreendente — as primeiras gerações de estrelas poderiam ser mil vezes mais massivas que o Sol, e suas explosões teriam moldado o destino desses sistemas antigos.

As primeiras escultoras da galáxia

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© X – @estelsiplanetes

Publicado na revista Monthly Notices of the Royal Astronomical Society, o trabalho propõe que poucas estrelas extremamente massivas foram suficientes para alterar toda a composição química dos aglomerados primordiais.
Essas estrelas, com entre mil e dez mil massas solares, viveram por um tempo incrivelmente curto, mas intenso o bastante para enriquecer o gás ao seu redor com elementos como nitrogênio, sódio e magnésio — um enigma que os modelos clássicos não conseguiam explicar.

“Nosso modelo mostra que apenas algumas estrelas desse tipo podem deixar uma impressão química duradoura em todo o aglomerado”, explicou Mark Gieles, pesquisador do Instituto de Ciências do Cosmos da Universidade de Barcelona.

Ventos estelares que semearam novas gerações

As simulações sugerem que, nos aglomerados mais densos, a turbulência do gás poderia gerar essas estrelas colossais, capazes de emitir ventos estelares poderosos antes mesmo de explodirem como supernovas.
Esses ventos, ricos em produtos de reações nucleares de alta temperatura, se misturavam com o gás “virgem” do aglomerado e formavam novas gerações de estrelas com assinaturas químicas únicas.

Esse processo teria ocorrido antes das primeiras supernovas, preservando parte da composição original do aglomerado. Assim, as diferenças observadas hoje entre estrelas de um mesmo sistema não seriam coincidência, mas heranças químicas deixadas por esses monstros estelares.

Um elo com o universo primordial

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© https://x.com/dreamsNscience

Os aglomerados globulares são algumas das estruturas mais antigas conhecidas, com mais de 10 bilhões de anos. A Via Láctea abriga cerca de 150 deles, cada um reunindo até milhões de estrelas.
Por décadas, astrônomos se perguntaram como estrelas de uma mesma origem poderiam apresentar composições tão distintas. O novo estudo fornece uma explicação plausível: as primeiras gerações de estrelas supermassivas atuaram como “alquimistas cósmicos”, moldando a química do ambiente ao seu redor.

Pistas do telescópio James Webb

O modelo também oferece uma interpretação para observações recentes do Telescópio Espacial James Webb (JWST), que detectou galáxias ricas em nitrogênio no universo primitivo.
Segundo os pesquisadores, esses sistemas podem ter sido dominados por aglomerados repletos de estrelas supermassivas, exatamente como o estudo descreve.

“Essas estrelas podem ter desempenhado um papel crucial na formação das primeiras galáxias”, afirmou Paolo Padoan, coautor do trabalho e pesquisador do Dartmouth College.

O legado deixado pelas estrelas gigantes

Além de resolver o mistério químico, o estudo abre novas perspectivas sobre a origem dos buracos negros de massa intermediária, que podem se formar a partir do colapso dessas estrelas gigantes.
Futuros detectores de ondas gravitacionais poderão identificar os sinais dessas fusões antigas, confirmando a existência dessas estrelas colossais que, mesmo há bilhões de anos extintas, ainda moldam o destino da Via Láctea.

Um retrato da juventude cósmica

Combinando simulações avançadas e observações de ponta, a equipe mostra que o nascimento da galáxia foi muito mais turbulento e dinâmico do que se pensava.
As gigantes mil-solares podem ter sido as verdadeiras arquitetas da Via Láctea, enriquecendo o espaço com os elementos que mais tarde dariam origem a estrelas, planetas — e, eventualmente, à vida.

 

[ Fonte: La Vanguardia ]

 

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