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A frota fantasma da Rússia vira instrumento de espionagem e amplia temores de segurança na Europa

Navios usados para driblar sanções ao petróleo russo estariam levando agentes ligados a serviços de inteligência e mercenários, segundo fontes ocidentais e ucranianas. A estratégia reforça o uso de táticas híbridas por Moscou e preocupa governos europeus, especialmente no Mar Báltico.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Desde o início da invasão em larga escala da Ucrânia, em 2022, a Rússia não apenas reorganizou suas rotas de exportação de petróleo como também criou uma engrenagem paralela para mantê-las funcionando apesar das sanções ocidentais. Essa rede, conhecida como “frota fantasma”, agora levanta um novo alerta: além de transportar petróleo, alguns desses navios estariam sendo usados para espionagem e possíveis ações de sabotagem em águas europeias.

Informações obtidas com exclusividade pela CNN junto a fontes de inteligência da Ucrânia e do Ocidente indicam que homens ligados ao aparato militar e de segurança russo vêm sendo embarcados discretamente nesses petroleiros. Muitas vezes, eles aparecem como os únicos cidadãos russos em tripulações formadas majoritariamente por asiáticos ou africanos, registrados apenas como “técnicos”.

O que é a frota fantasma russa

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© https://x.com/Proctologo/

A chamada frota fantasma é composta por centenas de navios-tanque, frequentemente registrados em países terceiros e com histórico de mudanças de nome e bandeira. O objetivo é contornar restrições impostas após a guerra na Ucrânia e manter o fluxo de petróleo a mercados como Índia e China. Estima-se que essa estratégia renda centenas de milhões de dólares por ano ao Kremlin.

Nos últimos meses, no entanto, serviços de inteligência passaram a notar um padrão diferente: a inclusão de agentes com histórico militar ou de segurança pouco antes das embarcações deixarem portos russos no Báltico ou no Mar Negro.

Moran Security e a ligação com mercenários

Várias dessas pessoas estariam ligadas à Moran Security Group, uma empresa privada de segurança com fortes conexões com as Forças Armadas e os serviços de inteligência da Rússia. Segundo fontes ocidentais, alguns desses homens já atuaram como mercenários da notória Wagner Group.

A Moran foi sancionada pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos em 2024 por fornecer “serviços de segurança armada” a empresas estatais russas, em uma tentativa de aumentar a pressão econômica sobre Moscou. Ainda assim, a empresa continuaria ativa, colocando seus funcionários em navios da frota fantasma para garantir que capitães estrangeiros sigam interesses russos — e, em alguns casos, para coletar informações sensíveis.

Fotografias, drones e suspeitas no Báltico

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© https://x.com/Ali_Ramos_Hakam

Um dos episódios mais citados envolve o petroleiro Boracay, que já mudou diversas vezes de nome e registro. Dados de satélite e listas de tripulação indicam que dois russos com histórico em forças policiais e militares embarcaram no navio no porto de Primorsk, próximo a São Petersburgo.

Segundo uma fonte de inteligência ocidental, membros da Moran chegaram a fotografar instalações militares europeias a partir desses navios. Autoridades dinamarquesas e suecas também relataram a presença de homens que não pareciam tripulação mercante comum, alguns usando uniformes militares e demonstrando comportamento hostil durante inspeções.

A preocupação aumentou após uma série de avistamentos de drones perto de aeroportos e bases militares na Dinamarca coincidir com a passagem do Boracay pela costa do país. Embora não haja provas conclusivas, analistas classificam a coincidência como “suspeita”.

Guerra híbrida e negação plausível

Especialistas em segurança veem a prática como parte de uma estratégia mais ampla de guerra híbrida. Ao usar empresas privadas e navios civis, Moscou mantém o que analistas chamam de “negação plausível”: todos sabem que há coordenação estatal, mas é difícil provar juridicamente.

“Colocar grupos armados privados nesses navios permite à Rússia pressionar e observar sem assumir responsabilidade direta”, explicou à CNN o ex-oficial de inteligência dinamarquês Jacob Kaarsbo.

Um dilema para a Europa

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Para países europeus, especialmente os que margeiam o Mar Báltico, a frota fantasma representa um desafio delicado. Interceptar ou barrar navios sem seguro ou registro adequado poderia aumentar a segurança, mas também elevar o risco de retaliação russa.

Como resumiu um experiente piloto marítimo dinamarquês, qualquer ação mais dura precisaria ser coordenada em nível europeu. “Sozinhos, somos pequenos demais para enfrentar a reação de Moscou”, afirmou. Enquanto isso, a frota fantasma segue navegando — agora não apenas como rota de petróleo, mas também como possível ferramenta silenciosa de espionagem.

 

[ Fonte: CNN ]

 

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