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Ciência

Estudo revela que preparar alimentos pode gerar mais partículas poluentes do que os carros

Uma pesquisa internacional identificou uma fonte surpreendente de partículas poluentes nas grandes cidades. Os resultados mostram que atividades cotidianas podem ter um impacto ambiental maior do que imaginávamos.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Quando pensamos em poluição urbana, a primeira imagem costuma ser a de avenidas congestionadas, ônibus soltando fumaça e fábricas funcionando sem parar. Mas uma investigação internacional revelou que uma atividade presente em praticamente todas as cidades pode liberar mais partículas de determinado tipo do que os escapamentos dos veículos. A descoberta surpreendeu por sua dimensão e indica que melhorar a qualidade do ar exigirá olhar além das fontes tradicionais de poluição.

Uma atividade cotidiana responde por até 87% de determinadas emissões

A fonte inesperada identificada pelos cientistas é o preparo de alimentos.

Pesquisadores liderados pelo Centro de Ecologia e Hidrologia do Reino Unido analisaram a contribuição de diferentes atividades para a poluição atmosférica em grandes centros urbanos.

O estudo, publicado em outubro de 2026 na revista npj Climate and Atmospheric Science, concentrou-se nas partículas PM1, cujo diâmetro é inferior a um micrômetro.

Essas partículas são extremamente pequenas e podem penetrar profundamente no sistema respiratório, representando riscos à saúde.

Os resultados mostraram que, nas condições analisadas em Londres, o preparo de alimentos respondeu por até 83% das emissões primárias de PM1 durante o horário do almoço.

No início da noite, essa participação chegou a 87%.

Em Pequim, na China, os percentuais alcançaram 61% ao meio-dia e 76% no período da noite.

Enquanto isso, as emissões diretamente provenientes dos escapamentos dos veículos representaram menos de 10% nas situações estudadas.

Isso não significa que cozinhar produza 87% de toda a poluição urbana. Os números se referem a uma categoria específica de partículas, em determinados locais e horários.

Ainda assim, revelam uma fonte de poluição que merece mais atenção.

Por que preparar alimentos pode liberar tantas partículas no ar?

O processo de cozinhar pode gerar aerossóis e partículas microscópicas, especialmente quando envolve temperaturas elevadas.

Atividades como fritar, grelhar e assar alimentos podem liberar pequenas partículas provenientes de óleos, gorduras e outros componentes aquecidos.

Em uma residência, essas emissões podem parecer pouco relevantes quando consideradas isoladamente.

Entretanto, o cenário muda em regiões urbanas densamente povoadas, onde milhares de restaurantes, lanchonetes e cozinhas funcionam simultaneamente.

Durante os horários de maior movimento, a preparação de refeições pode produzir concentrações significativas de partículas no ambiente.

O problema ganha importância porque as emissões de cozinhas comerciais receberam historicamente menos atenção regulatória do que aquelas provenientes dos veículos.

Os pesquisadores apontam que sistemas mais eficientes de exaustão e filtragem poderiam ajudar a reduzir parte dessas emissões.

Mas a relevância dessa estratégia depende das características de cada cidade e das fontes predominantes de poluição.

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© Gary Barnes – Pexels

Os carros estão poluindo menos, mas isso não significa que deixaram de ser um problema

A descoberta também reflete mudanças importantes no transporte urbano.

No Reino Unido, as emissões de partículas finas provenientes dos escapamentos diminuíram aproximadamente 94% entre 1996 e 2024.

Esse avanço está relacionado a regulamentações ambientais, melhorias tecnológicas nos motores e à expansão de veículos eletrificados.

Com a redução dessas emissões, outras fontes passaram a representar uma parcela proporcionalmente maior da poluição primária analisada.

Entretanto, os veículos continuam produzindo partículas por outros mecanismos.

O desgaste de pneus, freios e pavimentos também libera materiais que podem permanecer suspensos no ar.

Além disso, parte significativa da poluição atmosférica se forma por reações químicas entre substâncias já presentes na atmosfera.

Portanto, os resultados não indicam que o trânsito deixou de representar uma ameaça à qualidade do ar.

Eles mostram que combater apenas a poluição dos escapamentos já não é suficiente para enfrentar todas as fontes de partículas urbanas.

A situação muda de cidade para cidade e exige soluções diferentes

Para compreender melhor essas diferenças, os pesquisadores também analisaram medições realizadas em Nova Délhi, na Índia.

Nesse caso, o cenário foi distinto.

O tráfego e outras fontes de combustão continuaram desempenhando um papel predominante nas emissões primárias estudadas.

A comparação demonstra que não existe uma única explicação para a poluição atmosférica em todas as cidades.

Fatores como legislação ambiental, tecnologias utilizadas, densidade populacional e atividades econômicas influenciam diretamente a composição do ar.

Os cientistas consideram que a modernização dos sistemas de filtragem em cozinhas comerciais pode representar uma oportunidade para reduzir emissões em determinadas regiões urbanas.

Isso não substitui políticas de transporte limpo, mas amplia as possibilidades de intervenção.

A principal conclusão é que a poluição das cidades está mudando, e as estratégias para combatê-la precisam acompanhar essa transformação.

Uma atividade tão comum quanto preparar uma refeição pode ter consequências ambientais importantes quando ocorre milhares de vezes, simultaneamente, em uma grande metrópole.

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