Durante anos, robôs humanoides foram vendidos como assistentes domésticos, trabalhadores incansáveis e até companheiros do dia a dia. Mas, por trás das apresentações chamativas e dos vídeos virais, cresce um desconforto silencioso na indústria. Executivos e especialistas reunidos recentemente nos Estados Unidos admitiram que essa categoria de produtos talvez tenha sido inflada cedo demais — e que, por enquanto, entrega pouco além de promessas caras.
Um alerta vindo do próprio setor
O sinal de alerta ficou evidente durante o Humanoids Summit, realizado em Mountain View, na Califórnia. Em reportagem do The Wall Street Journal, o jornalista Sean McLain descreveu um clima bem menos triunfalista do que o discurso público costuma sugerir. A impressão geral: os fabricantes sabem que venderam uma visão de futuro que ainda não se sustenta.
Enquanto Elon Musk fala abertamente em exércitos de robôs e empresas já aceitam pré-encomendas de “mordomos” humanoides por valores próximos de US$ 20 mil, cresce o temor de que produtos mal definidos cheguem ao mercado. O resultado? Milhões de consumidores insatisfeitos e uma nova geração de lixo eletrônico com forma humana.
O receio, aliás, já foi explicitado até por autoridades chinesas, que alertaram para o risco de transformar entusiasmo tecnológico em fracasso comercial em larga escala.
“Os Newtons da nossa época”
Um dos comentários mais citados do evento veio de Kaan Dogrusoz, CEO da Weave Robotics. “Há muito talento e avanços tecnológicos, mas ainda não são produtos bem definidos”, disse ele ao jornal. Em seguida, lançou uma comparação que soou como um balde de água fria: “Robôs humanoides totalmente bípedes são os Newtons do nosso tempo”.
A referência é ao Apple Newton MessagePad, um computador portátil lançado nos anos 1990, quando a Apple vivia uma fase turbulenta. O aparelho ficou famoso pelos bugs, virou piada pública e acabou descontinuado após o retorno de Steve Jobs. Anos depois, a própria indústria o trataria como um exemplo clássico de tecnologia lançada antes da hora.
Caros, limitados e potencialmente perigosos
O problema não é apenas a falta de utilidade prática. Segundo executivos ouvidos no evento, robôs humanoides ainda exigem investimentos enormes em segurança. Ani Kelkar, sócio da McKinsey, resumiu de forma brutal: para cada US$ 100 gastos na implementação de robôs em ambientes de trabalho, apenas US$ 20 vão para o robô em si. Os outros US$ 80 servem para evitar que ele machuque alguém.
Isso expõe um abismo entre vídeos promocionais — robôs dobrando roupas ou andando de forma elegante — e a realidade de colocá-los em casas, fábricas ou escritórios.
Treinar robôs… por humanos
Outros exemplos reforçam o caráter embrionário da tecnologia. Isaac Qureshi, CEO da Gatlin Robotics, apresentou um robô capaz de esfregar uma parede de tijolos — desde que controlado remotamente por um humano usando um headset de realidade virtual. A promessa é ensinar o robô, aos poucos, a executar tarefas como tirar pó, limpar superfícies, esvaziar lixeiras e, eventualmente, limpar banheiros.
Já Pras Velagapudi, CTO da Agility Robotics, foi ainda mais direto: “Estamos tentando descobrir como não apenas fazer um robô humanoide, mas um robô humanoide que faça trabalho útil”. A frase, dita em um evento do setor, resume o dilema atual.
Muito hype, pouco valor real
A crítica implícita é clara: a indústria pode estar repetindo erros clássicos do passado, lançando produtos caros, mal acabados e sem uma proposta de valor sólida. Se isso acontecer, o impacto não será apenas financeiro, mas reputacional — afastando consumidores e investidores de uma área que, no longo prazo, pode sim ter potencial.
Por enquanto, a conclusão que ecoou no Humanoids Summit é desconfortável, mas honesta: robôs humanoides ainda não estão prontos para cumprir o que prometem. Comprar um hoje significa pagar caro para participar de um experimento — com resultados incertos e utilidade limitada.
Para um setor acostumado a vender o futuro, admitir isso talvez seja o primeiro passo para, algum dia, finalmente entregá-lo.