Pular para o conteúdo
Mundo

Aço chinês pressiona a indústria latino-americana e reacende debate sobre tarifas de proteção

O avanço do aço chinês na América Latina está redesenhando o mapa industrial da região. Com preços baixos, subsídios estatais e excesso de produção global, as importações ganham espaço e colocam em xeque empregos, investimentos e a sobrevivência de siderúrgicas locais.
Por

Tempo de leitura: 3 minutos

A indústria do aço na América Latina vive um momento de forte tensão. Em meio ao aumento da demanda por materiais de construção e infraestrutura, o setor enfrenta uma concorrência crescente do aço importado da China, vendido a preços considerados artificialmente baixos. Empresários, sindicatos e especialistas alertam que, sem mecanismos de defesa comercial, o avanço dessas importações pode acelerar um processo de desindustrialização na região.

Uma competição vista como desigual

Como a China usa IA para ampliar vigilância e prever dissidência
© https://x.com/ULTIMAHORAENX/

Segundo representantes do setor, a disputa não ocorre em condições normais de mercado. Para Associação Latino-Americana do Aço (Alacero), o principal problema é o forte apoio do Estado chinês às suas siderúrgicas, por meio de subsídios diretos, crédito barato e políticas industriais agressivas.

Ezequiel Tavernelli, presidente da entidade, resume o cenário afirmando que as empresas latino-americanas não competem com outras companhias, mas com o próprio governo chinês. Essa assimetria, segundo ele, torna praticamente impossível sustentar a produção local apenas com ganhos de eficiência.

Excesso global e exportações em massa

Em 2024, a demanda global por aço bruto alcançou cerca de 1,87 bilhão de toneladas. A China respondeu sozinha por mais de 1 bilhão desse total, gerando um excedente estimado em 249 milhões de toneladas. Esse volume acabou direcionado aos mercados internacionais, superando as necessidades produtivas de diversas regiões.

Estimativas da Alacero indicam que os investimentos chineses previstos até 2027 podem elevar esse excedente para mais de 720 milhões de toneladas. Parte da produção já vem sendo deslocada para países do Sudeste Asiático, o que amplia ainda mais a presença do aço chinês — direta ou indiretamente — nos mercados latino-americanos.

Impactos diretos na América Latina

Banco prevê qual país terá a moeda mais estável da América Latina em 2026 — e o resultado surpreende
© Unsplash – Leon Overweel.

Atualmente, as importações representam cerca de 40% do consumo de aço na América Latina, e a China é responsável por quase metade desse total. Entre janeiro e outubro de 2025, o país asiático exportou mais de US$ 59 bilhões em aço e produtos derivados, com Brasil, Chile e Argentina entre os principais destinos regionais.

Na Argentina, as importações de aço chinês ultrapassaram US$ 248 milhões até outubro. A União Obrera Metalúrgica aponta a perda de aproximadamente 20 mil empregos no setor desde o fim de 2023, atribuída ao aumento das importações e à desaceleração econômica.

No Brasil, a indústria alerta para risco de colapso diante do recorde de importações. O governo reagiu com a imposição de uma tarifa de 25%, mas o setor já contabiliza mais de 5 mil postos de trabalho perdidos e investimentos suspensos que superam US$ 450 milhões.

Casos emblemáticos: Chile, México e Colômbia

No Chile, a crise teve um desfecho simbólico. A siderúrgica Huachipato encerrou suas operações em agosto de 2024, após anos de dificuldades financeiras. A empresa atribuiu parte do colapso à concorrência do aço chinês, e as medidas governamentais adotadas não conseguiram reverter a situação.

O México também reforçou sua política de defesa comercial. O país decidiu aplicar tarifas de até 50% sobre produtos de aço originários da China, somando-se ao imposto de 25% em vigor desde 2023, mantido pelo governo de Claudia Sheinbaum.

Já na Colômbia, a produção de aço acumula 37 meses consecutivos de queda, segundo dados oficiais. A indústria local enfrenta uma diferença de preços de até 40% em relação ao aço importado, o que compromete a competitividade e os investimentos.

Mais que aço bruto: um desafio industrial mais amplo

Tavernelli destaca que a estratégia chinesa evoluiu. Além do aço bruto, o país passou a exportar produtos manufaturados que incorporam aço, como veículos elétricos e eletrodomésticos. Isso amplia o impacto sobre cadeias produtivas inteiras e aprofunda a crise industrial na região.

Para especialistas, a adoção de políticas semelhantes às aplicadas por Estados Unidos e União Europeia — com tarifas, cotas e medidas antidumping — é vista como essencial. Sem isso, alertam, a América Latina corre o risco de perder capacidade industrial justamente em um momento de crescente demanda por infraestrutura e desenvolvimento econômico.

 

[ Fonte: Infobae ]

 

Partilhe este artigo

Artigos relacionados