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Ciência

Fisioterapeuta afirma que a má postura é um mito e explica o que realmente causa dor nas costas

Passamos a vida tentando sentar corretamente para evitar dores nas costas. Mas um fisioterapeuta questiona essa regra e explica por que o problema pode estar em outro lugar.
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Tempo de leitura: 5 minutos

Manter as costas retas, alinhar os ombros e evitar ficar curvado diante do computador são recomendações repetidas há décadas. A ideia de que existe uma postura perfeita parece tão evidente que poucas pessoas a questionam. Entretanto, uma visão diferente vem ganhando espaço na fisioterapia: talvez a posição do corpo não seja tão determinante para a saúde da coluna quanto imaginamos. E entender essa diferença pode mudar nossa relação com a dor.

A ideia de uma postura perfeita está sendo questionada

O fisioterapeuta espanhol Daniel Sanjuán chama a atenção para uma crença profundamente enraizada: a de que determinadas posições corporais são necessariamente prejudiciais e precisam ser corrigidas.

Ao afirmar que a má postura é um mito, o especialista questiona principalmente a associação automática entre sentar de determinada maneira e desenvolver problemas na coluna.

Durante anos, recomendações populares estabeleceram uma espécie de modelo ideal para o corpo humano. Costas eretas, ombros alinhados e pés apoiados no chão passaram a representar a posição considerada correta.

O problema é que essa interpretação simplifica excessivamente o funcionamento do organismo.

A coluna vertebral não é uma estrutura rígida que precisa permanecer constantemente alinhada. Ela possui curvas naturais e foi desenvolvida para permitir diferentes movimentos e posições.

Sentar com as costas arredondadas, inclinar o tronco ou mudar a distribuição do peso não significa necessariamente provocar uma lesão.

Isso não quer dizer que a postura seja irrelevante. Algumas posições podem aumentar o desconforto em determinadas pessoas, especialmente quando mantidas durante períodos prolongados.

A diferença está em compreender que não existe uma única posição universalmente adequada para todos os corpos.

Por que sentimos dor mesmo quando estamos sentados corretamente?

Fisioterapeuta afirma que a má postura é um mito e explica o que realmente causa dor nas costas
© Ilyass SEDDOUG – Unsplash

Uma das dificuldades de associar diretamente postura e dor está na complexidade dos problemas musculoesqueléticos.

A dor nas costas pode envolver fatores físicos, emocionais, comportamentais e ambientais.

Qualidade do sono, estresse, condicionamento físico, histórico de lesões e características individuais podem influenciar a maneira como o organismo responde às atividades cotidianas.

Isso ajuda a explicar por que duas pessoas que trabalham durante horas na mesma posição podem apresentar experiências completamente diferentes.

Enquanto uma desenvolve desconforto frequente, outra pode permanecer sem sintomas.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, aproximadamente 619 milhões de pessoas conviviam com dor lombar em 2020.

A condição representa uma das principais causas de incapacidade no mundo, mas nem sempre está associada a alterações estruturais identificáveis na coluna.

Em muitos casos, especialmente na dor lombar inespecífica, não é possível apontar uma única causa responsável pelos sintomas.

Por isso, atribuir todo desconforto a uma suposta postura incorreta pode levar a interpretações equivocadas e deixar outros fatores importantes de lado.

O verdadeiro problema pode ser permanecer parado por muito tempo

Se não existe uma posição perfeita, qual seria a melhor maneira de proteger as costas durante o trabalho ou os estudos?

Uma resposta prática é variar as posições ao longo do dia.

Permanecer sentado durante várias horas sem interrupções pode provocar rigidez e desconforto, independentemente de a pessoa estar com as costas retas ou ligeiramente curvadas.

Isso acontece porque músculos e articulações precisam lidar continuamente com as exigências impostas pela posição mantida.

Alternar entre sentar, levantar, caminhar e realizar pequenos movimentos ajuda a distribuir essas exigências.

Para quem trabalha diante do computador, algumas mudanças simples podem fazer diferença.

Levantar periodicamente, caminhar durante alguns minutos, ajustar a altura da tela e encontrar uma posição confortável são estratégias razoáveis.

Entretanto, não existe um intervalo universal que funcione para todas as pessoas.

O mais importante é observar os sinais do corpo e evitar transformar uma recomendação ergonômica em uma regra rígida.

Uma cadeira confortável e uma estação de trabalho bem ajustada podem ajudar, mas não substituem a movimentação regular.

A ciência aponta para outra estratégia contra a dor nas costas

Fisioterapeuta afirma que a má postura é um mito e explica o que realmente causa dor nas costas
© Gustavo Fring – Pexels

A importância do movimento também aparece em pesquisas sobre o tratamento da dor lombar crônica.

Uma revisão sistemática publicada no Journal of Occupational Rehabilitation analisou estudos clínicos sobre programas estruturados de exercícios para pessoas com dor lombar persistente.

Os pesquisadores encontraram evidências de que a prática orientada de exercícios provavelmente contribui para reduzir a intensidade da dor e melhorar a capacidade funcional.

Entre as atividades investigadas estavam exercícios aeróbicos, fortalecimento muscular, Pilates, yoga e treinamento de controle motor.

Os resultados não significam que exista uma modalidade ideal para todos.

A escolha depende das necessidades individuais, das preferências e das condições de saúde de cada pessoa.

Também é importante distinguir dor lombar crônica de episódios agudos, já que as evidências sobre os benefícios de intervenções específicas não são necessariamente iguais.

A principal mensagem é que fortalecer o corpo e manter uma rotina de atividades pode ser mais útil do que tentar controlar permanentemente a posição da coluna.

Isso significa que podemos sentar de qualquer maneira?

A resposta exige equilíbrio.

Questionar o conceito de postura perfeita não significa afirmar que todas as posições são igualmente confortáveis em qualquer circunstância.

Pessoas com determinadas condições clínicas, limitações funcionais ou lesões podem precisar de orientações específicas.

Além disso, atividades que envolvem levantamento de cargas, movimentos repetitivos ou esforços prolongados exigem atenção às capacidades individuais e às condições de execução.

O ponto central é abandonar a ideia de que o corpo é extremamente frágil e pode ser prejudicado simplesmente por assumir uma posição considerada inadequada.

Também não há motivo para sentir culpa toda vez que os ombros ficam relaxados ou as costas se curvam durante uma atividade.

Para a maioria das pessoas, variar posições, praticar exercícios regularmente e respeitar os próprios limites são estratégias mais sensatas do que buscar um alinhamento corporal permanente.

Quando a dor é persistente, piora progressivamente ou interfere nas atividades cotidianas, uma avaliação profissional é recomendada. Sintomas como fraqueza progressiva nas pernas ou alterações no controle da bexiga e do intestino exigem atendimento médico urgente.

A discussão levantada por Daniel Sanjuán representa uma mudança importante na maneira de compreender a saúde musculoesquelética.

Em vez de procurar uma postura perfeita, talvez seja mais produtivo desenvolver um corpo capaz de se movimentar com confiança, força e liberdade.

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