Passar muitas horas sentado já é reconhecido como um hábito prejudicial à saúde. No entanto, um novo estudo sugere que o problema não está apenas no tempo total de sedentarismo, mas também na forma como ele se acumula ao longo do dia. Permanecer imóvel durante longos períodos consecutivos pode representar um risco maior do que ficar sentado pelo mesmo tempo, mas fazendo pequenas pausas para se movimentar.
A pesquisa, publicada na revista científica PLOS Medicine, foi conduzida por pesquisadores da Universidade de Glasgow, na Escócia, e reforça a importância de interromper regularmente o tempo sentado, mesmo que seja apenas para realizar atividades leves.
Longos períodos sentado aumentaram o risco de câncer
Para investigar a relação entre sedentarismo e câncer, os cientistas analisaram dados do UK Biobank, um dos maiores projetos de saúde do mundo, que acompanha voluntários do Reino Unido há décadas.
O estudo reuniu aproximadamente 90 mil participantes de meia-idade. Todos utilizaram monitores de atividade física durante uma semana, permitindo aos pesquisadores registrar com precisão quanto tempo permaneciam sentados e como esse comportamento se distribuía ao longo do dia.
Os voluntários foram acompanhados por cerca de 12 anos.
Os pesquisadores definiram como sedentarismo prolongado qualquer período de pelo menos 30 minutos em que a pessoa permanecia praticamente imóvel durante mais de 90% do tempo.
Não basta apenas fazer exercícios
Os resultados confirmaram que permanecer sedentário por muitas horas aumenta o risco de desenvolver câncer e também de morrer pela doença.
Entretanto, o padrão de comportamento fez diferença.
Pessoas que acumulavam longos períodos ininterruptos sentadas apresentaram um risco ainda maior do que aquelas que interrompiam o sedentarismo regularmente, mesmo quando o tempo total sentado era semelhante.
Após considerar fatores como idade, alimentação, tabagismo, consumo de álcool, condição socioeconômica e estilo de vida, os pesquisadores observaram que cada hora adicional de sedentarismo contínuo esteve associada a um aumento de aproximadamente 10% no risco de morte por câncer.
A associação foi observada tanto para o conjunto de todos os tipos de câncer quanto para tumores relacionados à obesidade e ao diabetes tipo 2.
Pequenas pausas podem fazer diferença
Embora o estudo seja observacional e não prove uma relação direta de causa e efeito, os resultados são compatíveis com pesquisas anteriores que demonstram os efeitos negativos de permanecer sentado por muito tempo.
Experimentos em laboratório já haviam mostrado que interromper períodos prolongados de inatividade melhora o metabolismo, reduz picos de glicose no sangue e favorece outros processos importantes para a saúde.
Com base nos dados, os pesquisadores estimaram que substituir apenas uma hora diária de sedentarismo prolongado por atividades físicas leves esteve associado a uma redução de aproximadamente 12% no risco de morrer por câncer.
Já trocar apenas cinco minutos por dia de tempo sentado por exercícios físicos de maior intensidade foi associado a uma redução de cerca de 22% nesse risco.
Movimento leve também conta
Segundo os autores, os resultados mostram que os benefícios da atividade física não dependem apenas de treinos intensos.
Levantar para caminhar pela casa, subir escadas, alongar o corpo ou realizar pequenas tarefas domésticas ao longo do dia já pode ajudar a reduzir os efeitos negativos de permanecer sentado durante muitas horas.
Os pesquisadores defendem que futuras recomendações de saúde levem em consideração não apenas a quantidade de exercícios praticados semanalmente, mas também a frequência com que as pessoas interrompem períodos prolongados de inatividade.
Para quem trabalha diante do computador, estuda por muitas horas ou costuma passar longos períodos assistindo séries ou jogando videogame, a orientação é simples: levantar regularmente e movimentar o corpo pode ser uma das formas mais fáceis de proteger a saúde. Ainda serão necessários novos estudos para confirmar uma relação causal entre sedentarismo prolongado e câncer, mas as evidências indicam que pequenas mudanças na rotina já podem trazer benefícios importantes a longo prazo.