A reta final do novo governo de Donald Trump já começa marcada por controvérsias. De acordo com uma reportagem do The Bulwark, o Departamento de Estado dos EUA concedeu um visto à comentarista conservadora Lauren Chen, permitindo seu retorno ao país após ter tido a entrada barrada durante a administração anterior. Chen é citada em investigações do Departamento de Justiça como peça-chave em um esquema de financiamento russo para influenciadores de direita.
O episódio foi celebrado publicamente pela própria Chen. Em uma publicação feita no X no dia de Natal, ela afirmou estar em Nashville ao lado do marido e agradeceu nominalmente a Joe Rittenhouse, assessor sênior para assuntos consulares do Departamento de Estado, por ter “movido montanhas” para garantir o retorno do casal aos Estados Unidos a tempo das festas.
Quem é Lauren Chen
Lauren Chen ganhou notoriedade política durante o primeiro governo Trump, quando se apresentava online como “Roaming Millennial” e flertava abertamente com a chamada alt-right. Um dos episódios mais lembrados de sua trajetória foi a entrevista com o supremacista branco Richard Spencer, realizada pouco antes do protesto Unite the Right, em Charlottesville, em 2017 — evento que terminou com a morte de uma manifestante após um ataque com carro.
Depois de tentativas frustradas de projetos independentes, Chen se consolidou dentro do ecossistema conservador, colaborando com organizações como The Blaze e Turning Point USA. Em 2022, ela e o marido, Liam Donovan, fundaram a Tenet Media, iniciativa que se tornaria o centro das acusações federais.
Acusações de financiamento russo
Segundo uma denúncia apresentada pelo Departamento de Justiça em 2024, a Tenet Media teria recebido milhões de dólares da emissora russa RT, controlada pelo Kremlin. O dinheiro teria sido usado para financiar criadores de conteúdo conservadores com o objetivo de difundir narrativas favoráveis à Rússia no público americano.
Entre os influenciadores citados como beneficiários estariam Benny Johnson, Tim Pool e Dave Rubin — todos nomes populares da direita digital. De acordo com a acusação, eles teriam recebido centenas de milhares de dólares, supostamente sem saber que os recursos tinham origem russa. O processo contra os financiadores ligados à RT segue em andamento, mas Chen não foi formalmente acusada criminalmente.
Do veto ao retorno aos EUA
Apesar de não ter enfrentado consequências judiciais diretas, Chen teve seu visto revogado durante o governo Biden, o que a impediu de retornar aos Estados Unidos por um período. Essa situação mudou com a nova administração Trump.
O responsável direto pela reversão teria sido Joe Rittenhouse, hoje assessor do Departamento de Estado. Segundo reportagens do The Daily Beast, Rittenhouse é um ex-ator que se tornou apoiador da campanha de Trump e foi recompensado com um cargo no governo. Ele também é conhecido por seu envolvimento com a chamada “direita online”, tendo compartilhado conteúdos de influenciadores extremistas enquanto ocupava um escritório federal.
Dois pesos e duas medidas
O caso gerou críticas especialmente pela comparação com outras decisões recentes do governo. Rittenhouse foi um dos porta-vozes da medida que revogou vistos de estudantes estrangeiros que participaram de protestos universitários contra a guerra em Gaza, classificados pelo governo como manifestações “antiamericanas”.
Para críticos, o contraste é evidente: enquanto estudantes são expulsos do país por protestar, uma influenciadora associada a um esquema de propaganda estrangeira recebe apoio direto para retornar. A própria retórica usada por Rittenhouse — que descreveu essas ações como parte de uma política de “America First” nos assuntos consulares — passou a ser citada de forma irônica por opositores.
Reações e silêncio oficial
Até o momento, o Departamento de Estado não respondeu oficialmente aos pedidos de esclarecimento feitos por veículos como o Gizmodo. A ausência de explicações públicas alimenta questionamentos sobre critérios, transparência e interferência política nas decisões migratórias.