O vírus que resiste ao calor do corpo
Quando o corpo detecta uma infecção, ele eleva a temperatura para dificultar a ação dos vírus. Em quadros febris, é comum o organismo atingir 40°C ou até 41°C. Mas a pesquisa publicada na revista Science mostrou que os vírus da gripe aviária são surpreendentemente adaptados a esse calor.
Isso acontece porque aves como patos e gaivotas — os principais hospedeiros naturais — possuem temperaturas internas entre 40°C e 42°C. Ou seja, o vírus já está acostumado a sobreviver e se replicar em ambientes quentes. Essa resistência térmica também permite que ele se instale no trato respiratório inferior, uma região mais profunda e menos acessível às defesas do corpo.
O gene que define quem sobrevive à febre
O estudo identificou um gene fundamental: o PB1, responsável por coordenar a replicação do vírus dentro das células infectadas. Versões desse gene, típicas de vírus aviários, tornam o patógeno muito mais resistente ao calor — inclusive ao calor provocado pela febre humana.
Nos experimentos com ratos, os cientistas mostraram que:
- elevar a temperatura corporal bloqueia vírus da gripe humana,
- mas não impede a multiplicação do vírus aviário.
Um aumento de apenas 2°C transformou uma infecção letal em um quadro leve — mas apenas quando o vírus pertencia à linhagem humana. Nos vírus com PB1 de origem aviária, a replicação continuou agressiva.
Por que isso preocupa especialistas?
Vírus da gripe humana e da gripe aviária podem trocar genes quando infectam a mesma pessoa ou animal. Isso já aconteceu nas pandemias de 1957 e 1968, quando vírus humanos incorporaram o gene PB1 aviário e se tornaram mais perigosos.
Segundo o pesquisador Matt Turnbull, autor do estudo, essa capacidade de recombinação é um risco contínuo: “Isso ajuda a explicar por que algumas pandemias foram tão graves. Precisamos monitorar as cepas aviárias para prever surtos e identificar variantes mais resistentes.”
Impacto nos tratamentos e próximos passos
Embora ainda não haja motivo para pânico, as descobertas levantam questões sobre o uso de antitérmicos, como ibuprofeno e aspirina. Estudos anteriores já sugeriam que reduzir a febre pode favorecer a transmissão da influenza A, e o novo trabalho reforça a necessidade de investigar melhor quando — e se — a febre deve ser controlada.
A equipe destaca que novas pesquisas são essenciais antes de qualquer mudança em diretrizes médicas. Ainda assim, o alerta está dado: entender como a gripe aviária se comporta em temperaturas elevadas pode ser crucial para evitar futuras epidemias e preparar respostas mais eficazes.
Se há algo claro neste estudo é que, na corrida entre vírus e sistema imunológico, a temperatura pode decidir o jogo — e a gripe aviária está aprendendo a jogar melhor do que gostaríamos.
[Fonte: Correio Braziliense]