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Ciência

Gripe aviária preocupa cientistas ao “driblar” defesa natural do corpo

A febre sempre foi vista como um dos alarmes mais poderosos do organismo contra infecções. Mas novas evidências mostram que parte dos vírus da gripe aviária pode simplesmente ignorar essa barreira. Um estudo das universidades de Cambridge e Glasgow revelou como esses microrganismos conseguem se replicar mesmo em temperaturas elevadas — e por que isso aumenta o alerta para transmissões entre humanos.
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Tempo de leitura: 2 minutos

O vírus que resiste ao calor do corpo

Quando o corpo detecta uma infecção, ele eleva a temperatura para dificultar a ação dos vírus. Em quadros febris, é comum o organismo atingir 40°C ou até 41°C. Mas a pesquisa publicada na revista Science mostrou que os vírus da gripe aviária são surpreendentemente adaptados a esse calor.

Isso acontece porque aves como patos e gaivotas — os principais hospedeiros naturais — possuem temperaturas internas entre 40°C e 42°C. Ou seja, o vírus já está acostumado a sobreviver e se replicar em ambientes quentes. Essa resistência térmica também permite que ele se instale no trato respiratório inferior, uma região mais profunda e menos acessível às defesas do corpo.

O gene que define quem sobrevive à febre

O estudo identificou um gene fundamental: o PB1, responsável por coordenar a replicação do vírus dentro das células infectadas. Versões desse gene, típicas de vírus aviários, tornam o patógeno muito mais resistente ao calor — inclusive ao calor provocado pela febre humana.

Nos experimentos com ratos, os cientistas mostraram que:

  • elevar a temperatura corporal bloqueia vírus da gripe humana,
  • mas não impede a multiplicação do vírus aviário.

Um aumento de apenas 2°C transformou uma infecção letal em um quadro leve — mas apenas quando o vírus pertencia à linhagem humana. Nos vírus com PB1 de origem aviária, a replicação continuou agressiva.

Por que isso preocupa especialistas?

Vírus da gripe humana e da gripe aviária podem trocar genes quando infectam a mesma pessoa ou animal. Isso já aconteceu nas pandemias de 1957 e 1968, quando vírus humanos incorporaram o gene PB1 aviário e se tornaram mais perigosos.

Segundo o pesquisador Matt Turnbull, autor do estudo, essa capacidade de recombinação é um risco contínuo: “Isso ajuda a explicar por que algumas pandemias foram tão graves. Precisamos monitorar as cepas aviárias para prever surtos e identificar variantes mais resistentes.”

Impacto nos tratamentos e próximos passos

Embora ainda não haja motivo para pânico, as descobertas levantam questões sobre o uso de antitérmicos, como ibuprofeno e aspirina. Estudos anteriores já sugeriam que reduzir a febre pode favorecer a transmissão da influenza A, e o novo trabalho reforça a necessidade de investigar melhor quando — e se — a febre deve ser controlada.

A equipe destaca que novas pesquisas são essenciais antes de qualquer mudança em diretrizes médicas. Ainda assim, o alerta está dado: entender como a gripe aviária se comporta em temperaturas elevadas pode ser crucial para evitar futuras epidemias e preparar respostas mais eficazes.

Se há algo claro neste estudo é que, na corrida entre vírus e sistema imunológico, a temperatura pode decidir o jogo — e a gripe aviária está aprendendo a jogar melhor do que gostaríamos.

[Fonte: Correio Braziliense]

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