Geraldo sofria de cirrose hepática causada por hepatite C desde 2010. Após anos de tratamento, entrou na fila nacional de transplantes e, em julho de 2023, foi chamado para a cirurgia no Hospital Albert Einstein, dentro do programa de transplantes do SUS. A operação parecia um sucesso — até que, sete meses depois, vieram os sinais de que algo estava errado.
Exames de imagem mostraram seis nódulos no fígado transplantado. A biópsia confirmou o diagnóstico: adenocarcinoma, um dos tipos mais comuns e agressivos de câncer. Um exame genético realizado em março de 2024 trouxe a revelação mais dura — as células tumorais não eram dele, mas da doadora.
“As células do tumor têm DNA feminino”
O teste comparou o DNA do sangue de Geraldo com o das células cancerígenas. O resultado foi inequívoco: o tumor tinha cromossomos femininos (XX), enquanto o paciente é homem cisgênero (XY). Ou seja, o câncer veio junto com o órgão transplantado.
“As células do tumor têm o DNA do doador, não do paciente. É uma prova genética definitiva”, explicou a médica e perita Caroline Daitx, especialista em medicina legal.
Com isso, Geraldo precisou de um segundo transplante em maio de 2024, mas, apenas três meses depois, veio a notícia mais temida: metástase no pulmão, com o mesmo tipo celular do câncer encontrado no fígado doado.
Como isso pode acontecer?
Casos de transmissão de câncer em transplantes são extremamente raros — algo em torno de 0,03%, segundo estudos internacionais. Mesmo assim, não são impossíveis. O risco existe quando o doador tem tumores microscópicos ou ocultos, que passam despercebidos pelos exames de triagem.
O oncologista Paulo Hoff, da Faculdade de Medicina da USP, explicou que, apesar da triagem rigorosa feita antes das doações — com histórico médico, exames laboratoriais e análise visual dos órgãos —, ainda há uma margem de falha:
“Não há como detectar micrometástases invisíveis. Se o DNA confirmou que o tumor veio do doador, não há dúvida — o câncer já estava no fígado.”
Ministério da Saúde acompanha o caso
Em nota, o Ministério da Saúde confirmou que acompanha o caso junto à Central Estadual de Transplantes de São Paulo e ao hospital responsável. Segundo a pasta, todos os protocolos legais e sanitários foram seguidos e nenhum problema de saúde foi identificado na doadora durante os exames prévios à retirada dos órgãos.
O ministério também afirmou que a investigação sobre a origem exata da doença ainda está em andamento, e que os resultados “não são conclusivos sobre a relação causal”.
A Secretaria Estadual da Saúde de São Paulo (SES-SP) reforçou que todos os transplantes passam por critérios técnicos e protocolos nacionais, incluindo testes obrigatórios para infecções e doenças, além de inspeção médica detalhada antes da utilização dos órgãos.
“Não cabe o silêncio institucional”
A esposa de Geraldo, Márcia Helena Vaz, transformou o desabafo em mobilização. Desde setembro de 2024, ela percorre ruas e redes sociais pedindo que o caso seja apurado.
“Não cabe o silêncio institucional. Esse silêncio dá margem para que o erro continue acontecendo”, disse Márcia.
Ela conta que foi informada apenas de que a doadora era uma mulher que morreu após um AVC. Por lei, a identidade de doadores e locais de captação são mantidos em sigilo, conforme o Decreto nº 9.175/2017, que regula a Lei dos Transplantes.
Um tratamento sem fim
Hoje, Geraldo enfrenta metástase pulmonar e faz quimioterapia contínua, sem previsão de cura. “No melhor dos cenários, o tratamento vai manter a doença controlada enquanto ele viver”, explicou Márcia. O ex-técnico de eletrodomésticos não pode mais trabalhar e depende de cuidados constantes.
Mesmo debilitado, ele mantém a esperança de que seu caso sirva de alerta. “Primeiro, a gente precisa saber onde ocorreu o erro. Hoje é o Geraldo; amanhã pode ser o Antônio, o José, qualquer um”, desabafa a esposa.
O que fica deste caso raro
Embora o episódio de Geraldo seja extraordinariamente incomum, ele reacende o debate sobre riscos e transparência no sistema de transplantes — um dos mais bem-sucedidos do mundo, mas que depende de checagens humanas em etapas sensíveis.
Especialistas reforçam que o transplante continua sendo, para muitos pacientes, a única chance de sobrevivência. O desafio está em reduzir as falhas e garantir que casos como este nunca mais se repitam.
[Fonte: Metrópoles]