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Ciência

Humanos faziam fogo 400 mil anos atrás — e a arqueologia acaba de provar

A história da evolução humana acaba de ganhar um novo capítulo — e ele é incendiário. Um estudo publicado na Nature afirma que nossos ancestrais já eram capazes de produzir fogo de forma intencional há 400 mil anos, muito antes do que se imaginava. A descoberta, feita no sítio arqueológico de Barnham, na Inglaterra, antecipa em 350 mil anos o domínio de uma das habilidades mais importantes da humanidade. Entenda como os pesquisadores chegaram a essa conclusão surpreendente.
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Tempo de leitura: 3 minutos

As pistas escondidas no solo que mudaram tudo

Para sustentar a ideia de produção intencional do fogo, os cientistas analisaram centenas de artefatos de Barnham. Entre eles estavam sedimentos aquecidos repetidamente, fragmentos de sílex alterados pelo calor e pedaços do mineral pirita — famoso por produzir faíscas quando friccionado com certas rochas.

O conjunto aponta para algo maior do que o simples aproveitamento de incêndios naturais: os hominídeos não só usavam o fogo, como eram capazes de criá-lo sempre que precisavam.

E o mais impressionante: esses grupos não eram Homo sapiens. De acordo com Chris Stringer, do Museu de História Natural de Londres, os “autores da fogueira” eram provavelmente neandertais primitivos, parentes diretos dos grupos que mais tarde povoariam a Europa.

Por que fazer fogo muda a história da evolução

Humanos faziam fogo 400 mil anos atrás — e a arqueologia acaba de provar
© https://x.com/NHM_London/

O domínio do fogo é considerado um dos principais motores da evolução humana. Ele está ligado à proteção contra predadores, mudanças na dieta, sociabilidade, aquecimento e até ao crescimento do cérebro.

Mas uma pergunta sempre intrigou arqueólogos: quando exatamente nossos ancestrais aprenderam a produzir fogo — e não apenas aproveitar incêndios ocasionais?

Até agora, a resposta mais aceita era “há 50 mil anos”. O estudo de Barnham empurra essa linha do tempo para uma escala totalmente diferente, alterando o entendimento sobre os comportamentos e capacidades cognitivas dos hominídeos.

“As implicações são enormes. Criar e controlar o fogo é um ponto de virada na história humana”, afirma Rob Davis, arqueólogo do Museu Britânico e coautor da pesquisa.

O que Barnham revelou — e por que é diferente de tudo já encontrado

O sítio foi escavado entre 1989 e 1994, mas sua riqueza científica ainda rende novas descobertas. Em camadas atribuídas ao período MIS 11 — um intervalo interglacial com clima quente e degelo — os pesquisadores encontraram:

  • manchas de sedimento avermelhado, indicativo de aquecimento intenso;
  • ferramentas de pedra modificadas pelo calor;
  • fragmentos de pirita próximos a materiais queimados;
  • vestígios de madeira carbonizada.

Análises microscópicas e geoquímicas mostraram que o aquecimento ocorreu no próprio local, não por queimadas naturais posteriores. Uso de espectroscopia infravermelha indicou temperaturas que ultrapassaram 750 °C, muito acima do que seria esperado em incêndios espontâneos ao ar livre.

Além disso, estudos de hidrocarbonetos aromáticos revelaram a assinatura química típica de fogueiras humanas — e não de incêndios regionais.

Pirita: o “isqueiro” pré-histórico que mudou o jogo

Dois fragmentos de pirita chamaram atenção especial. A rocha, quando golpeada contra sílex, produz faíscas capazes de iniciar fogueiras — técnica documentada em diversas culturas humanas.

O detalhe decisivo: a pirita não é comum na região de Barnham. Para Nick Ashton, curador do Museu Britânico, isso significa que o material foi transportado até ali. A ação sugere planejamento, conhecimento técnico e integração do mineral ao “kit fogo” dos hominídeos.

“É incrível que grupos tão antigos conhecessem as propriedades da pirita. Essa é a descoberta mais notável da minha carreira”, afirma Ashton.

Uma revolução no comportamento dos primeiros hominídeos

O período entre 500 mil e 300 mil anos atrás marca uma fase crítica da evolução: cérebros maiores, ferramentas mais complexas e comportamentos sociais cada vez mais elaborados.

A capacidade de fazer fogo oferecia vantagens decisivas:

  • cozinhar alimentos e absorver melhor proteínas;
  • economizar energia digestiva, liberando recursos para o desenvolvimento cerebral;
  • criar espaços sociais iluminados, favorecendo interações e divisão de tarefas;
  • manter fogueiras acesas por longos períodos.

Barnham, portanto, não revela apenas fogueiras: revela comunidade, técnica e continuidade.

Por que a descoberta é tão importante

Usar fogo não é difícil. Difícil é provar que alguém produziu fogo deliberadamente há centenas de milhares de anos.

Sítios na África e na Europa já mostraram evidências de calor antigo, mas quase sempre misturadas a processos naturais que deixam margem para dúvidas. Barnham se destaca porque reúne um pacote completo de sinais:

  • sedimentos queimados;
  • ferramentas fraturadas pelo calor;
  • madeira carbonizada;
  • pirita transportada;
  • repetição de eventos de combustão;
  • temperaturas elevadas e localizadas.

Para os autores, trata-se da evidência mais robusta até hoje de que grupos pré-Homo sapiens dominavam técnicas de produção de fogo — uma habilidade que remodelou a vida humana.

A arqueologia, mais uma vez, mostra que nosso passado é muito mais antigo, complexo e engenhoso do que imaginávamos. E Barnham prova que, muito antes das cidades, da escrita e da tecnologia, uma fagulha já estava mudando o destino da humanidade.

[Fonte: Correio Braziliense]

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