A inteligência artificial pode transformar o mercado de trabalho de uma maneira menos visível que as demissões: reduzindo a abertura de vagas. Quando tarefas passam a ser executadas por ferramentas digitais, empresas conseguem reorganizar equipes sem necessariamente dispensar funcionários. O efeito, porém, pode atingir quem ainda tenta entrar. Uma reportagem do Infobae sobre o mercado espanhol destaca esse risco para profissionais iniciantes, tradicionalmente contratados para atividades que também serviam como aprendizado.
A mudança aparece na contratação

Na avaliação de Gloria Martínez, responsável global de marketing da plataforma espanhola Tendios, deixar de abrir uma vaga costuma ser mais simples para uma empresa que realizar uma demissão. A decisão evita custos e conflitos, mas pode limitar gradualmente o acesso ao trabalho.
A reportagem cita o Barômetro de Talento Digital 2026, segundo o qual 51,7% das empresas consultadas preveem menos oportunidades para profissionais juniores com a incorporação da IA.
O número representa uma expectativa dos entrevistados. Portanto, não significa que metade das vagas iniciais já tenha desaparecido ou que todas as empresas espanholas estejam reduzindo contratações na mesma proporção.
Ainda assim, o levantamento aponta uma preocupação concreta: a automação pode alcançar justamente as atividades utilizadas para formar novos profissionais.
Dados dos Estados Unidos mostram pressão sobre os jovens
Uma análise atualizada do Stanford Digital Economy Lab também encontrou diferenças entre trabalhadores em início de carreira e profissionais experientes.
Com dados de folhas de pagamento da ADP, os pesquisadores observaram que o emprego de pessoas entre 22 e 25 anos em ocupações muito expostas à IA ficou cerca de 19% abaixo do nível que teria alcançado se acompanhasse a evolução das ocupações menos expostas.
Essa comparação não equivale a uma queda absoluta de 19% nos postos. Ela mede uma diferença entre trajetórias de emprego.
Segundo os autores, o ajuste aparece principalmente na redução de contratações de jovens, em vez de um aumento das saídas. Trabalhadores experientes não apresentaram uma diferença comparável.
O estudo, entretanto, descreve padrões e não estabelece quanto dessa mudança foi causado pela IA. Outros fatores econômicos também podem influenciar os resultados.
A experiência passa a ter outro peso
Os pesquisadores de Stanford destacam uma diferença entre conhecimentos documentados e conhecimentos adquiridos na prática.
Procedimentos padronizados, disponíveis em textos e sistemas digitais, podem ser mais facilmente reproduzidos por ferramentas generativas. Já a experiência com clientes, situações imprevistas e decisões específicas de uma organização continua mais difícil de replicar.
Essa distinção ajuda a explicar por que automatizar tarefas pode reduzir a necessidade de algumas contratações iniciais enquanto preserva a demanda por profissionais experientes. Trata-se de uma interpretação compatível com os dados, ainda sujeita a investigação.
Novas vagas também exigem competências diferentes

O movimento inclui demanda por pessoas capazes de desenvolver e utilizar essas tecnologias. No Future of Jobs Report 2025, do Fórum Econômico Mundial, 69% dos empregadores consultados afirmaram planejar contratar profissionais com competências para projetar e aperfeiçoar ferramentas de IA.
Outros 62% indicaram intenção de contratar pessoas preparadas para trabalhar com a tecnologia. São planos empresariais, e não contratações já realizadas.
O relatório também aponta a importância de capacitar as equipes. Para quem busca o primeiro emprego, aprender a usar ferramentas digitais passa a fazer parte de uma formação que precisa incluir avaliação dos resultados e compreensão das tarefas.
A dificuldade é conciliar essas novas exigências com oportunidades reais de aprendizado. Se empresas continuam precisando de experiência, preservar caminhos para desenvolvê-la será parte central da adaptação ao trabalho com IA.