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Ciência

Imagens de satélite revelam mega-tsunamis que sacudiram a Terra por nove dias seguidos

Cientistas finalmente descobriram o que causou tremores globais misteriosos que duraram nove dias em 2023. A resposta está em dois mega-tsunamis gerados por deslizamentos de gelo na Groenlândia — ondas colossais que revelam mais um impacto extremo das mudanças climáticas.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Em 2023, sismógrafos ao redor do mundo registraram algo sem precedentes: pequenos tremores ritmados, ocorrendo a cada 90 segundos, por nove dias seguidos. O fenômeno se repetiu um mês depois e confundiu especialistas. Agora, uma equipe internacional de cientistas desvenda esse mistério com ajuda de imagens de satélite — e a resposta tem tudo a ver com o avanço acelerado do aquecimento global.

A Terra tremia, mas ninguém sabia o motivo

Durante duas semanas de setembro e outubro de 2023, o planeta vibrava levemente a cada minuto e meio. Não se tratava de terremotos, nem de movimentações tectônicas comuns. Era algo novo — e desconcertante. Cientistas passaram meses tentando identificar a origem dos tremores, até que duas hipóteses independentes apontaram para um possível culpado: grandes deslizamentos de terra em um fiorde do leste da Groenlândia, o Dickson Fjord.

Esses deslizamentos teriam provocado “mega-tsunamis” — ondas gigantes que ficaram confinadas dentro do fiorde e formaram seiches, oscilações de água que ricocheteiam como em uma banheira agitada. Ainda assim, faltavam provas diretas de que essas ondas eram responsáveis pelos tremores globais.

A confirmação que veio do espaço

Para resolver o enigma, o pesquisador Thomas Monahan e sua equipe usaram dados do satélite SWOT (Surface Water and Ocean Topography), lançado pela NASA em 2022. Esse satélite é capaz de medir com altíssima precisão a elevação da superfície da água, mesmo em regiões de relevo complicado como fiordes árticos — algo que outros satélites não conseguiam fazer.

Com essas imagens, os cientistas conseguiram detectar alterações anormais no nível da água do Dickson Fjord exatamente nos momentos em que os tremores sísmicos aconteceram. A análise revelou ondas de até 200 metros (600 pés) de altura, geradas por deslizamentos causados pelo colapso de uma geleira.

Provas cruzadas: quando o mar move a crosta terrestre

A observação das ondas foi só o primeiro passo. Para provar que elas causaram os tremores, os cientistas precisaram conectar as imagens do SWOT com dados sísmicos coletados em estações espalhadas por milhares de quilômetros. A sobreposição dos registros mostrou que os movimentos da crosta terrestre coincidiram com os picos das ondas dentro do fiorde.

Além disso, a equipe descartou outros fatores, como tempestades ou marés. Combinando essas informações, os pesquisadores conseguiram reconstruir o comportamento das ondas até nos intervalos em que o satélite não estava observando diretamente.

Ameaça invisível do Ártico

Esses mega-tsunamis foram os primeiros do tipo já registrados no leste da Groenlândia — embora já tenham ocorrido eventos semelhantes na costa oeste da região. O fato de agora se espalharem para outras partes do território é alarmante. “Isso mostra que o aquecimento global está se acelerando nesta área”, alerta Monahan.

As ondas se formaram quando uma geleira, enfraquecida pelo calor, colapsou e provocou deslizamentos em massa no mar. O impacto gerou as ondas gigantes e desencadeou vibrações capazes de viajar por todo o globo.

Um alerta de longo alcance

“Pode parecer exagero dizer, mas essas descobertas reforçam que as mudanças climáticas são um fenômeno realmente global”, afirmou Monahan. As regiões polares, longe dos olhos do público, estão passando pelas transformações mais rápidas e drásticas do planeta. “Compreender essas mudanças é essencial, porque mais cedo ou mais tarde, seus efeitos vão nos alcançar diretamente.”

O estudo mostra que, mesmo em áreas remotas e aparentemente isoladas, os impactos do aquecimento global têm o poder de fazer a Terra inteira tremer — literalmente. E as imagens de satélite nos dão, agora, uma visão clara (e preocupante) dessa nova era geológica em que vivemos.

 

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