Enquanto o planeta tenta lidar com o consumo energético explosivo da inteligência artificial, Jeff Bezos já pensa além da atmosfera. O bilionário afirmou que a única forma sustentável de manter o crescimento da IA será transferir parte da infraestrutura digital para o espaço. A proposta — ousada, mas coerente com sua visão de colonização orbital — prevê a criação de data centers orbitais movidos a energia solar até 2045.
Data centers espaciais: o próximo passo da IA
Durante sua participação na Italian Tech Week, em Turim, o fundador da Amazon e da Blue Origin descreveu um cenário em que grandes complexos de computação operariam fora da Terra, alimentados por energia solar abundante e livres das limitações ambientais do planeta.
“Vamos construir data centers de gigawatts no espaço. É inevitável”, disse Bezos ao público. “A IA exige energia em uma escala que a Terra não pode sustentar para sempre.”
Essas megainstalações orbitais, segundo ele, poderiam suportar o processamento de modelos avançados de IA sem sobrecarregar as redes elétricas terrestres — um problema crescente à medida que empresas como OpenAI, Google e Amazon Web Services ampliam suas operações.
A crise energética da inteligência artificial
O alerta de Bezos chega em meio a preocupações globais sobre o consumo de energia e água dos data centers. Segundo o Banco de América, o investimento em novas instalações nos EUA ultrapassou US$ 40 bilhões em 2025, o maior da história. Esses complexos consomem dezenas de gigawatts e exigem milhões de litros de água por dia para resfriamento.
Relatórios recentes indicam que a IA generativa pode aumentar a demanda elétrica global em até 10% até 2030, o que representa o equivalente ao consumo de um país como o Japão. Bezos, que há anos defende a industrialização fora da Terra, vê nessa crise uma justificativa para acelerar sua visão orbital.
Blue Origin e o “plano O’Neill”
A ideia não é nova. Bezos frequentemente cita o físico Gerard O’Neill, que nos anos 1970 propôs a construção de colônias espaciais autossuficientes. Para o fundador da Blue Origin, essa é a direção natural da civilização tecnológica: mover as atividades industriais poluentes para o espaço e preservar a Terra como uma zona verde e habitável.
A Blue Origin, sua empresa aeroespacial, já trabalha em módulos orbitais reutilizáveis e sistemas de energia solar espacial. Embora o plano de data centers orbitais ainda seja conceitual, Bezos acredita que o avanço dos lançamentos reutilizáveis e dos cabos de comunicação ópticos interplanetários tornará o projeto viável nas próximas décadas.
O desafio técnico e o custo
Construir e manter um data center no espaço exigirá refrigeração por radiação, blindagem contra radiação cósmica e transmissão de dados em alta velocidade entre a Terra e a órbita. Especialistas apontam que o custo inicial seria astronômico, mas Bezos argumenta que a automação e o reuso de naves podem reduzir o preço em até 90% no longo prazo.
Além disso, ele aposta que o uso de energia solar contínua, disponível 24 horas no espaço, tornaria essas operações carbono zero, um argumento atraente diante da crescente pressão ambiental sobre o setor de tecnologia.
Uma visão futurista — e controversa
Críticos consideram a proposta mais visão de ficção científica do que plano concreto, lembrando que os próprios data centers terrestres ainda enfrentam desafios básicos de eficiência e conectividade. Mesmo assim, a ideia reflete uma tendência emergente na indústria espacial: transformar o espaço em infraestrutura crítica para comunicações, computação e energia.
“As futuras gerações olharão para trás e verão a Terra como uma zona residencial e natural — não industrial”, afirmou Bezos.
Com sua fortuna estimada em mais de US$ 200 bilhões e uma empresa aeroespacial em plena expansão, ele talvez seja um dos poucos capazes de transformar essa profecia em algo mais do que um sonho de ficção científica.