Durante décadas, livros antigos e publicações especializadas passaram despercebidos em sebos e pequenas livrarias. Agora, porém, eles se tornaram alvo de uma corrida silenciosa impulsionada pelo avanço da inteligência artificial. O fenômeno envolve compras em grande escala, digitalização acelerada e uma discussão que vai muito além da tecnologia: afinal, o que acontece quando preservar o conteúdo significa abrir mão do próprio livro?
Livros esquecidos ganharam um novo valor na era da inteligência artificial
O avanço da inteligência artificial criou uma demanda inesperada por livros impressos publicados antes da explosão dos conteúdos gerados por IA na internet. Em diferentes países da Europa, livreiros começaram a notar um comportamento incomum: pedidos de centenas ou até milhares de exemplares chegaram em um curto espaço de tempo, concentrando-se principalmente em obras fora de catálogo.
O interesse, no entanto, não está voltado para edições raras ou itens de colecionador. As compras priorizam livros técnicos, anais de congressos, estudos acadêmicos, publicações regionais e outros materiais especializados que nunca foram digitalizados ou que permanecem pouco acessíveis na internet.
Para empresas envolvidas no desenvolvimento de modelos de IA, esse tipo de conteúdo representa uma fonte valiosa de textos escritos integralmente por seres humanos, produzidos antes da internet ser inundada por conteúdos automatizados. Quanto mais diversificados forem esses materiais, maior tende a ser a variedade de vocabulário, informações e estilos de escrita disponíveis para treinar os sistemas.
O comportamento dos compradores também chamou a atenção dos donos de sebos. Em muitos casos, as listas de pedidos reúnem assuntos completamente diferentes entre si e ignoram o valor comercial tradicional de cada obra, indicando que o conteúdo interessa muito mais do que o objeto físico.
Em parte dessas negociações apareceu o nome da empresa canadense Zoom Books, especializada oficialmente na compra, venda e reciclagem de livros usados. A companhia afirmou que não trabalha diretamente para a Anthropic, responsável pelo chatbot Claude, mas evitou informar quem são seus clientes ou qual é o destino final dos exemplares, alegando cláusulas de confidencialidade.
Até o momento, não há provas públicas de que todos os livros adquiridos pela empresa sejam destinados ao treinamento de inteligências artificiais. Ainda assim, investigações jornalísticas identificaram registros antigos da própria companhia oferecendo serviços relacionados à aquisição de livros usados para treinamento de algoritmos e posterior destruição dos exemplares.

O processo de digitalização levanta um debate sobre preservação e acesso ao conhecimento
A busca por livros físicos ganhou força porque especialistas apontam que uma parcela crescente do conteúdo disponível online já passou por algum tipo de geração, edição ou reformulação feita por inteligência artificial. Isso reduz o interesse das empresas em utilizar apenas dados encontrados na internet.
Intermediárias como a ISBNdb passaram, inclusive, a promover livros impressos publicados antes de 2022 como uma espécie de reserva de textos “puramente humanos”, menos contaminados pelo chamado AI slop — expressão usada para descrever conteúdos produzidos em massa por sistemas automáticos, muitas vezes repetitivos ou de baixa qualidade.
A dimensão dessa estratégia ficou mais evidente após documentos judiciais revelarem detalhes do chamado Project Panama, iniciativa da Anthropic voltada para a compra e digitalização de milhões de livros físicos. O procedimento utilizado ficou conhecido como “escaneamento destrutivo”: máquinas removem completamente a lombada, separam as páginas para digitalização em alta velocidade e, ao final, os restos do livro seguem para reciclagem.
Em uma decisão tomada em junho de 2025, o juiz norte-americano William Alsup entendeu que a empresa poderia criar versões digitais de livros adquiridos legalmente, considerando relevante o fato de que cada exemplar físico era destruído após o processo e substituído apenas por uma cópia digital mantida internamente.
A decisão, porém, não autorizou práticas de pirataria. O processo também revelou que a Anthropic havia obtido milhões de livros por meio de bibliotecas ilegais, situação considerada incompatível com o uso justo da legislação americana. Posteriormente, a empresa aceitou um acordo de US$ 1,5 bilhão referente a essas cópias.
Mais do que a destruição de livros famosos, o maior receio de bibliotecários e livreiros envolve obras extremamente raras, boletins comunitários, fanzines, pesquisas locais e documentos de circulação limitada. Embora o conteúdo continue existindo em bases de dados privadas, o desaparecimento dos exemplares físicos pode dificultar o acesso de pesquisadores e da sociedade a um patrimônio que talvez nunca possa ser recuperado.
No fim das contas, a inteligência artificial promete preservar o conhecimento humano em formato digital. Mas esse movimento também levanta uma pergunta inevitável: até que ponto vale destruir parte desse patrimônio para ensinar as máquinas do futuro?