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Ciência

Cientistas calcularam quanto tempo uma cidade lunar sobreviveria e encontraram um enorme problema

Energia, matéria-prima e tecnologia talvez não sejam os maiores obstáculos para uma cidade lunar. Um cálculo revelou que algo muito mais básico poderia limitar todo o projeto.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Imagine uma cidade com um milhão de habitantes na Lua. Casas, plantações, centros de dados, fábricas e enormes estruturas solares poderiam transformar o satélite em um segundo polo da civilização humana. A tecnologia para isso ainda está distante, mas um novo estudo decidiu fazer uma pergunta diferente: mesmo que conseguíssemos construir tudo isso, por quanto tempo a cidade sobreviveria? A resposta aponta para um problema surpreendentemente terrestre: água.

A Lua tem água — e isso mudou completamente os planos

Durante muito tempo, imaginar uma comunidade autossuficiente na Lua parecia impossível por uma razão óbvia: transportar água continuamente da Terra seria extremamente caro.

Então vieram as descobertas de gelo lunar.

Próximo aos polos existem crateras que não recebem luz solar direta há bilhões de anos. As temperaturas em algumas dessas regiões permanecem abaixo de -160 °C, criando verdadeiras armadilhas naturais capazes de preservar gelo por períodos enormes.

Missões espaciais confirmaram a presença de água nessas regiões e ajudaram a mapear locais onde ela provavelmente está concentrada.

As estimativas variam consideravelmente. O novo estudo trabalhou inicialmente com um cenário extremamente otimista de até 1 bilhão de toneladas de água disponíveis.

Parece muito.

Até começar a construir uma cidade.

Um milhão de habitantes mudam completamente a conta

Cientistas calcularam quanto tempo uma cidade lunar sobreviveria e encontraram um enorme problema
© Unsplash

O astrofísico Martin Elvis, do Harvard-Smithsonian Center for Astrophysics, analisou quanta água e energia seriam necessárias para sustentar grandes populações na Lua.

Sem reciclagem, até aquela reserva otimista de 1 bilhão de toneladas duraria apenas alguns anos em uma cidade com um milhão de moradores.

Mas existe uma tecnologia que muda bastante o resultado.

A Estação Espacial Internacional já consegue recuperar aproximadamente 98% da água utilizada. Aplicando eficiência semelhante a uma cidade lunar, a reserva poderia durar pouco mais de um século.

O problema é que a quantidade real de água disponível pode ser muito menor.

Segundo o estudo, algumas das melhores estimativas atuais ficam aproximadamente 30 vezes abaixo do cenário de 1 bilhão de toneladas.

Nesse caso, até assentamentos significativamente menores poderiam enfrentar escassez muito antes.

Curiosamente, eletricidade não seria o maior problema

Aqui aparece uma das conclusões mais interessantes do estudo.

Algumas regiões elevadas próximas às crateras polares recebem luz solar durante períodos extremamente longos.

O trabalho calcula que torres solares de aproximadamente um quilômetro de altura instaladas nesses locais poderiam produzir cerca de 3 gigawatts de eletricidade.

Existe ainda matéria-prima para fabricar painéis.

O regolito lunar contém silício em abundância, levantando a possibilidade de produzir parte das estruturas solares diretamente na Lua em vez de transportar tudo da Terra.

Isso poderia alimentar habitats, agricultura, mineração e até grandes centros de dados.

Enquanto a energia poderia ser expandida construindo mais infraestrutura, porém, a água lunar representa um estoque finito conhecido.

E é aí que a diferença entre uma base e uma metrópole se torna enorme.

Mil pessoas podem funcionar melhor que um milhão

Uma pequena comunidade muda radicalmente o cenário.

Segundo os cálculos apresentados no estudo, um assentamento com cerca de 1.000 habitantes poderia permanecer sustentável durante vários séculos ou mais, dependendo da quantidade real de água e da eficiência de reciclagem.

Até uma comunidade com 10 mil moradores teria perspectivas muito melhores que uma cidade de um milhão.

Isso sugere que as primeiras comunidades permanentes na Lua provavelmente precisariam crescer de maneira extremamente cuidadosa.

Não bastaria descobrir como levar pessoas até lá.

Seria necessário calcular quantas pessoas o ambiente consegue realmente sustentar.

Existe uma saída escondida debaixo da superfície

Os pesquisadores apresentam algumas soluções.

Uma delas seria melhorar radicalmente a reciclagem. Se sistemas futuros recuperassem algo próximo de 99,9% da água, o cenário mudaria drasticamente. Outro caminho seria reduzir o consumo com técnicas agrícolas mais eficientes.

Também seria possível transportar água de outros corpos celestes, como asteroides acessíveis.

Mas talvez exista uma alternativa muito mais simples: encontrar mais gelo na própria Lua.

As técnicas atuais de prospecção conseguem examinar apenas alguns metros abaixo da superfície em determinados contextos. O regolito lunar, entretanto, pode atingir dezenas de metros de profundidade.

Isso significa que as regiões permanentemente sombreadas podem esconder reservas que ainda não conseguimos medir adequadamente.

A própria NASA está desenvolvendo tecnologias para localizar, extrair e utilizar recursos lunares, incluindo água, justamente porque essa capacidade é considerada fundamental para missões de longa duração.

Antes de construir uma cidade, teremos que fazer uma pergunta muito mais simples

A ideia de ocupar permanentemente a Lua costuma ser apresentada como um desafio de foguetes, habitats e engenharia.

Mas o estudo mostra que existe outra camada.

Uma cidade não precisa apenas ser construída.

Precisa continuar funcionando durante décadas ou séculos sem consumir seus próprios recursos até desaparecer.

E isso transforma a água lunar em algo muito mais importante do que simplesmente aquilo que futuros astronautas colocarão em seus copos.

Ela serviria para beber, cultivar alimentos, produzir oxigênio e, após separação em hidrogênio e oxigênio, potencialmente fabricar propelentes. A NASA considera o uso de recursos locais uma peça importante para reduzir a dependência de suprimentos enviados da Terra.

Talvez seja possível construir uma cidade na Lua.

O verdadeiro desafio será descobrir quantas pessoas poderão viver nela antes que o recurso mais básico de todos comece a desaparecer.

[Fonte: Infobae]

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