Mais do que uma manifestação, a marcha encerrou a primeira semana da COP30 com um alerta: o mundo precisa abandonar os combustíveis fósseis, e rápido.
Uma multidão exige o fim do petróleo

A Marcha da Cúpula dos Povos levou cerca de 70 mil pessoas às ruas, segundo a organização — a maior mobilização popular de toda a COP30 até agora. O ato teve a presença das ministras Marina Silva (Meio Ambiente) e Sônia Guajajara (Povos Indígenas), além de uma grande diversidade de movimentos sociais, comunidades tradicionais e lideranças indígenas.
O objetivo foi claro: cobrar dos países um plano concreto para substituir petróleo, carvão e gás por energia limpa. Para Marina, o Brasil já mostra o caminho.
“Somos o único país com um mapa realista para zerar o desmatamento”, disse ela, citando reduções de 50% no desmatamento da Amazônia e quedas expressivas nos focos de incêndio no Pantanal, Cerrado e outros biomas. Mas reforçou: “Ainda não é suficiente”.
A fala encontrou eco nas ruas, onde manifestantes seguravam faixas contra a exploração de petróleo na Margem Equatorial e criticavam projetos como a Ferrogrão e novas hidrelétricas na Amazônia.
Amazônia no centro do mundo — e do debate climático
Em seu discurso, Sônia Guajajara destacou algo simbólico: o planeta está olhando para Belém. A COP30 já transformou a cidade no epicentro das discussões climáticas globais, e a marcha ampliou essa visibilidade.
Sônia comparou a manifestação à Blue Zone, área oficial da conferência onde negociadores se reúnem. A diferença é que, nas ruas, estavam “os guardiões e as guardiãs da vida” — indígenas, quilombolas, extrativistas e outros grupos que vivem diretamente os impactos do colapso ambiental.
O debate sobre energia limpa, Amazônia e justiça climática apareceu o tempo todo. Palavras de ordem cobravam responsabilidades do chamado Norte Global, que emite mais e historicamente financia menos. O deputado Túlio Gadêlha reforçou esse ponto ao defender que os países ricos assumam sua parte na conta climática.
Protagonismo feminino entra em cena
A COP30 também teve um momento importante no debate sobre gênero. A Bancada Feminina, com presença de lideranças como Luiza Brunet, Luciene Kayabi e a ministra Maria Elizabeth Rocha, lançou um documento pedindo reparação histórica e mais voz para as mulheres nas decisões climáticas.
Entre as propostas estão:
- destinar pelo menos 20% dos recursos climáticos para projetos liderados por mulheres;
- criar o fundo Mulheres Guardiãs dos Biomas;
- implementar cotas femininas em todos os espaços de decisão ambiental.
A ideia central: não existe justiça climática sem igualdade de gênero.
O que está em disputa nos próximos dias
A marcha encerra uma primeira semana intensa. Agora, negociadores de 194 países começam a discutir rascunhos de acordos que podem definir o futuro da luta contra o aquecimento global.
Nos próximos dias, representantes de alto escalão vão buscar consenso — especialmente em temas como transição energética, financiamento climático e proteção da Amazônia.
A pressão popular já está nas ruas; resta saber como ela vai ecoar dentro das salas fechadas da conferência.
No fim das contas, a COP30 deixou claro que Belém não é apenas sede da conferência — é palco de uma disputa global entre o velho modelo fóssil e o futuro das energias limpas. Resta acompanhar se os líderes mundiais vão ouvir o recado que 70 mil vozes já gritaram nas ruas.
[Fonte: Correio Braziliense]