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Matt Damon diz em voz alta o que todo mundo já sabe sobre a Netflix — e sobre como nossos cérebros viraram purê com o celular

Não é só nostalgia de ator veterano. Matt Damon revelou que executivos da Netflix pedem diálogos repetitivos porque o público assiste aos filmes enquanto mexe no celular. O comentário expõe algo desconfortável: a indústria já produz conteúdo assumindo que nossa atenção está fragmentada — e talvez irrecuperável.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Todo mundo sabe que o celular mudou a forma como assistimos a filmes. Mas ouvir isso diretamente da boca de Matt Damon dá outro peso à discussão. Em uma entrevista recente ao lado de Ben Affleck, o ator descreveu conversas com executivos da Netflix que revelam uma adaptação silenciosa — e profunda — do cinema ao hábito de assistir distraído. O problema não é só tecnológico. É cognitivo, cultural e, talvez, irreversível.

“Repete o plot, porque ninguém está prestando atenção”

Durante uma entrevista conjunta no podcast The Joe Rogan Experience, Matt Damon contou que, em reuniões sobre narrativa, ouviu de executivos da Netflix algo surpreendentemente direto: não seria ruim repetir a trama três ou quatro vezes nos diálogos, já que as pessoas estão no celular enquanto assistem.

Não é uma crítica abstrata a “outros espectadores”. É sobre todos nós. Provavelmente, inclusive, sobre quem estava assistindo ao próprio filme que Damon promovia enquanto rolava o feed do Instagram.

A constatação não é nova, mas é brutal quando verbalizada dessa forma: os roteiros já nascem prevendo a distração do público.

A era da dupla tela virou regra, não exceção

Pesquisas reforçam essa percepção. Um estudo de 2019 indicava que até 94% das pessoas usavam o celular enquanto assistiam televisão — e isso antes da pandemia. O isolamento, tudo indica, apenas consolidou o hábito.

Hoje, o “dual-screen experience” não é um desvio de comportamento, mas o padrão. A Netflix sabe disso. E produz seus filmes e séries levando em conta que boa parte do público está apenas ouvindo, não vendo.

O resultado é uma linguagem audiovisual que se explica o tempo todo.

Quando o filme narra a si mesmo

Essa lógica já havia sido descrita por Will Tavlin em um ensaio publicado na revista N+1. Segundo ele, roteiristas que trabalharam com a Netflix relataram pedidos recorrentes do tipo: “faça o personagem dizer o que está fazendo, para quem está assistindo com o filme em segundo plano conseguir acompanhar”.

O efeito disso é quase cômico. Tavlin cita diálogos excessivamente expositivos, em que personagens anunciam seus planos, destinos e conflitos como se estivessem lendo um resumo em voz alta. Basta entrar no filme em qualquer ponto e, em poucos minutos, tudo está explicado.

É um cinema pensado não para a imersão, mas para a distração tolerável.

Nostalgia exagerada — mas nem tão errada assim

Ben Affleck, como era de se esperar, entra na conversa com uma dose generosa de nostalgia. Ele lembra que, no passado, as pessoas iam ao cinema toda semana porque não havia muitas alternativas. Era isso ou “ver as vacas passando”.

O próprio Affleck reconhece o tom de velho reclamão e ironiza a própria postura. Mas, exageros à parte, a comparação serve para destacar algo real: o cinema exigia presença total.

Não havia pausa, não havia replay, não havia notificação.

Filme como igreja, celular como heresia

Para Matt Damon, a diferença é quase espiritual. Ele compara o cinema a ir à igreja: você chega no horário, o ritual não espera por você e exige atenção plena.

Em casa, o cenário é outro. Luz acesa, crianças correndo, cachorro latindo, notificações pipocando. O filme vira apenas mais um estímulo competindo por espaço mental.

Não é só uma mudança de ambiente. É uma mudança de disposição cognitiva. A atenção que estamos dispostos — ou somos capazes — de oferecer é radicalmente menor.

A indústria se adapta, mas o custo é alto

A Netflix não criou esse comportamento. Ela apenas se adaptou a ele. O problema é que essa adaptação tem um preço: histórias mais redundantes, menos sutis, menos confiantes na inteligência do espectador.

Quando tudo precisa ser dito em voz alta, sobra pouco espaço para silêncio, ambiguidade ou interpretação. Elementos que sempre foram centrais para o cinema como arte.

Talvez o problema sejamos nós

Damon e Affleck podem soar como “velhos ranzinzas”, mas isso não os torna errados. A crítica não é ao streaming em si, mas à forma como nos relacionamos com ele.

Assistir a um filme enquanto checamos mensagens, respondemos e-mails e rolamos redes sociais não é multitarefa eficiente. É atenção diluída.

Voltar ao cinema como ato de resistência

A conclusão não é tecnológica, mas comportamental. Se queremos filmes que confiem mais no espectador, talvez precisemos voltar a ser espectadores mais atentos.

Apagar o celular. Escurecer a sala. Assistir sem interrupções.

Ou, como sugeriu Damon, tratar o cinema como um ritual. Com hora marcada. Sem distrações. Quase como ir à igreja.

Amém.

 

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