O CES 2026 deixou uma mensagem clara para a indústria: os óculos inteligentes deixaram de ser promessa e passaram a ser produto de massa. Nesse cenário, a Meta ocupa uma posição privilegiada, liderando o mercado com folga. Mas o sucesso veio acompanhado de um efeito colateral inesperado. A empresa simplesmente não consegue atender à demanda — um problema que executivos classificam como “frustrante” e que já obrigou a companhia a pisar no freio de sua expansão global.
Um “problema bom”, mas ainda assim um problema
Na semana passada, a Meta confirmou que vai pausar a expansão internacional dos seus óculos Ray-Ban Meta Display, modelo mais avançado da linha, que inclui tela integrada, controle por gestos e comandos corporais. O lançamento estava previsto para mercados como Reino Unido, França, Itália e Canadá, mas foi adiado por um motivo simples: falta de unidades.
Segundo Alex Himel, vice-presidente de wearables da Meta, a procura nos Estados Unidos superou todas as expectativas. “É um ‘happy problem’ vender mais rápido do que o previsto, mas continua sendo frustrante”, afirmou durante uma mesa-redonda no CES 2026.
O reconhecimento público do gargalo mostra que, apesar do domínio tecnológico e de mercado, a empresa ainda enfrenta limitações industriais e logísticas — algo raro para uma gigante do porte da Meta.
O que torna os óculos da Meta tão atraentes

Os Ray-Ban Meta Display vão além de um acessório conectado. Eles permitem tirar fotos e vídeos, interagir com um assistente de inteligência artificial, além de ler e responder mensagens diretamente das plataformas da Meta, como WhatsApp, Messenger e Instagram.
Recentemente, a empresa anunciou novas funções que ampliam ainda mais o apelo do dispositivo, como modo teleprompter e navegação para pedestres, recursos que transformam os óculos em uma espécie de interface portátil sempre ativa.
Para Himel, parte do sucesso vem justamente dessa integração profunda com o ecossistema de aplicativos da empresa — algo que concorrentes ainda tentam replicar.
Números que explicam a frustração
Os dados ajudam a entender o tamanho do desafio. No primeiro trimestre no mercado, a Meta vendeu cerca de 15 mil unidades dos Ray-Ban Meta Display, alcançando 6% de participação na categoria, segundo a IDC.
Mas o cenário fica ainda mais impressionante quando se olha para o mercado mais amplo de óculos inteligentes, incluindo modelos sem tela. De acordo com a Counterpoint, esse segmento cresceu 110% em termos anuais no primeiro semestre de 2025 — e a Meta respondeu por 73% desse mercado.
Em fevereiro do ano passado, a empresa já havia anunciado a venda de mais de 2 milhões de unidades dos Meta Ray-Ban de primeira geração. Já a EssilorLuxottica, parceira responsável pela fabricação, revelou que a linha gera cerca de US$ 15 bilhões em receita trimestral.
Óculos como a próxima plataforma computacional
Para a EssilorLuxottica, o momento marca uma virada histórica. Em comunicado conjunto, os executivos Francesco Milleri e Paul du Saillant afirmaram que os óculos estão se consolidando como a próxima grande plataforma de computação, onde inteligência artificial, sensores avançados e dados de saúde convergem para ampliar as capacidades humanas.
Essa visão explica por que a Meta mantém um portfólio tão amplo: atualmente, são cinco dispositivos no mercado, incluindo os Ray-Ban Meta (Gen 1 e 2), Oakley Meta Vanguard, Oakley Meta HSTN e os Ray-Ban Meta Display — estes últimos ainda indisponíveis em vários países.
Concorrência cresce, especialmente na Ásia
Apesar da liderança da Meta, o mercado está longe de ser um monopólio confortável. Fabricantes chineses como TCL, Xreal e Rokid ganharam destaque no CES 2026, com dispositivos compatíveis com plataformas de IA como ChatGPT, DeepSeek e Qwen.
Embora essas empresas tenham foco principal na Ásia, todas demonstram interesse em expandir para a América do Norte. Os preços, entre US$ 279 e US$ 599, são competitivos, e os conceitos se aproximam cada vez mais da proposta da Meta.
Himel reconhece esse movimento e afirma que o setor de wearables está se diversificando rapidamente, impulsionado por novos formatos e sensores capazes de capturar uma imagem mais completa do usuário.
Produção acelerada e aposta de longo prazo

Segundo a Bloomberg, Meta e EssilorLuxottica discutem elevar a capacidade anual de produção para 20 milhões de unidades ou mais até o fim de 2026. O plano reforça a aposta pessoal de Mark Zuckerberg nesse mercado.
Por enquanto, o maior desafio da Meta não é convencer consumidores — é conseguir fabricar rápido o suficiente. Em um setor onde quase todos lutam por relevância, liderar e, ainda assim, faltar produto pode ser o sinal mais claro de que os óculos inteligentes chegaram para ficar.
[ Fonte: Expansión ]