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Ciência

O oceano está mudando por dentro e isso ajuda a explicar a subida global do mar

Durante décadas, o derretimento das geleiras foi apontado como o principal responsável pela elevação dos mares. Agora, uma nova análise revela que existe um fator menos visível, mas ainda mais decisivo.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Quando se fala em aumento do nível do mar, a imagem mais comum é a de geleiras gigantes se fragmentando na Groenlândia ou na Antártida. Essa cena realmente faz parte da explicação, mas está longe de contar toda a história. Um novo estudo internacional conseguiu reconstruir com precisão como os oceanos mudaram nas últimas seis décadas e chegou a uma conclusão surpreendente: a principal força por trás da elevação dos mares não está sobre o gelo, mas escondida nas profundezas do próprio oceano.

O oceano está crescendo por um motivo que quase ninguém percebe

A pesquisa, publicada recentemente por cientistas especializados em mudanças climáticas e oceanografia, analisou a evolução do nível médio global do mar entre 1960 e 2023. O resultado ajudou a resolver uma questão que há anos intrigava os pesquisadores: qual é exatamente o peso de cada fator responsável pela elevação dos oceanos?

A resposta aponta para um fenômeno conhecido como expansão térmica. Em termos simples, a água ocupa mais espaço quando aquece. Isso significa que o oceano não precisa receber uma única gota adicional para aumentar de volume. Basta que sua temperatura suba.

Segundo os cálculos da nova reconstrução, esse processo responde por cerca de 43% de toda a elevação acumulada do nível do mar desde 1960. Trata-se da maior contribuição individual identificada pelos pesquisadores.

Enquanto isso, o recuo das geleiras de montanha foi responsável por aproximadamente 27% da alta observada. A perda de gelo da Groenlândia contribuiu com 15%, enquanto a Antártida respondeu por cerca de 12%. Outros fatores ligados ao armazenamento de água nos continentes completaram a conta.

A descoberta também ajuda a esclarecer um equívoco bastante comum. O gelo marinho do Ártico, por exemplo, tem impacto muito menor sobre o nível do mar do que muita gente imagina. Como ele já está flutuando, seu derretimento não altera significativamente o volume dos oceanos. O verdadeiro problema está no gelo continental e no aquecimento contínuo das águas.

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© Daniel Mirlea – Unsplash

A velocidade da mudança está aumentando de forma preocupante

Além de identificar as causas, os cientistas observaram que o ritmo da elevação do mar acelerou consideravelmente.

Entre 1960 e 2023, o nível médio global subiu cerca de 2,06 milímetros por ano. Pode parecer pouco, mas o cenário muda quando se observa apenas as últimas duas décadas. Entre 2005 e 2023, essa taxa praticamente dobrou, alcançando 3,94 milímetros anuais.

Para chegar a esse resultado, os pesquisadores combinaram diferentes fontes de informação: registros históricos de marégrafos, dados de satélites, medições de temperatura e salinidade dos oceanos e informações sobre a perda de gelo nas regiões polares.

Uma ferramenta fundamental nesse trabalho foi a rede internacional Argo, formada por milhares de boias autônomas espalhadas pelos oceanos. Esses equipamentos mergulham até cerca de 2 mil metros de profundidade, registram temperatura e salinidade e depois retornam à superfície para transmitir os dados aos satélites.

Essas medições revelaram algo importante: os oceanos estão armazenando uma quantidade crescente de calor. Esse calor não fica apenas na superfície. Ele penetra em camadas profundas, expandindo lentamente enormes volumes de água.

O derretimento do gelo continua importante, mas a história é mais complexa

Isso não significa que as geleiras deixaram de ser uma preocupação. Pelo contrário. A perda de gelo continental vem acelerando nas últimas décadas e sua participação na elevação dos mares cresce continuamente.

Os pesquisadores destacam que o aumento do nível do mar é resultado da combinação de vários mecanismos que atuam ao mesmo tempo. Parte da água vem do gelo que derrete sobre os continentes. Outra parte já estava nos oceanos, mas passou a ocupar mais espaço devido ao aquecimento.

O aspecto mais revelador da pesquisa é justamente mostrar que o problema não está apenas nas regiões geladas do planeta. Durante décadas, uma parcela significativa da elevação do mar aconteceu silenciosamente sob a superfície dos oceanos, impulsionada pelo calor acumulado no sistema climático.

E isso responde diretamente à pergunta do título: a principal causa da subida dos mares nas últimas seis décadas não foi o derretimento de uma geleira específica, mas a expansão das águas oceânicas aquecidas. Um processo invisível para quem observa a superfície, mas que vem transformando lentamente o planeta inteiro.

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