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Ciência

Micróbios da Terra podem sobreviver na Lua, revela estudo da NASA

Bactérias e fungos levados por astronautas podem encontrar pequenos refúgios no polo sul lunar. A descoberta não significa que exista vida na Lua, mas levanta uma preocupação para as futuras missões espaciais.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Quando pensamos na Lua, imaginamos um ambiente completamente hostil à vida. Não existe atmosfera significativa nem água líquida estável na superfície. Há vácuo, temperaturas extremas e radiação capaz de danificar moléculas orgânicas.

Ainda assim, um novo estudo realizado por cientistas da NASA acrescenta uma possibilidade surpreendente: alguns microrganismos terrestres podem sobreviver temporariamente em determinadas regiões do polo sul da Lua.

Isso não significa que cientistas tenham encontrado bactérias vivendo por lá. Muito menos que nosso satélite seja habitável. A pesquisa mostra apenas que certas regiões podem ser menos hostis aos micróbios do que imaginávamos.

Cientistas procuraram pequenos refúgios para micróbios na Lua

Microbiologia1
© Instituto Weizmann

Publicado na revista Science Advances, o estudo combinou mapas de temperatura, relevo e iluminação da superfície lunar com resultados de experimentos anteriores sobre a resistência de diferentes microrganismos.

Os pesquisadores analisaram principalmente a capacidade de sobrevivência diante de temperaturas extremas e da radiação ultravioleta.

A partir dessas informações, criaram mapas indicando possíveis nichos onde células terrestres poderiam permanecer viáveis.

Esses locais variam bastante de tamanho. Alguns podem ocupar regiões no interior de crateras, enquanto outros seriam minúsculos, com uma superfície comparável à marca deixada pela bota de um astronauta.

A pesquisa foi liderada por Heather Graham, bioquímica da NASA, e analisou cinco tipos de microrganismos associados aos seres humanos ou encontrados anteriormente em ambientes espaciais.

Bactérias e fungos foram colocados à prova

Os pesquisadores analisaram três bactérias: Bacillus subtilis, Staphylococcus aureus e Deinococcus radiodurans.

Também foram estudados o fungo Aspergillus niger e diferentes espécies do gênero Fusarium.

Alguns desses organismos já demonstraram uma capacidade impressionante de suportar condições extremas, inclusive após exposição ao ambiente espacial no exterior da Estação Espacial Internacional.

O próximo passo foi descobrir o que aconteceria se esses microrganismos chegassem à Lua.

Para isso, a equipe analisou três regiões próximas ao polo sul lunar: Nobile Rim, Connecting Ridge e De Gerlache Rim.

Os cientistas utilizaram dados de temperatura e elevação obtidos pela sonda Lunar Reconnaissance Orbiter, além de modelos capazes de calcular como a radiação solar atinge diferentes pontos da superfície.

Sombras no polo sul podem funcionar como refúgios

É justamente no polo sul que existe uma característica capaz de aumentar as chances de sobrevivência dos microrganismos.

Como o eixo de rotação da Lua possui uma inclinação muito pequena, o Sol permanece extremamente baixo no horizonte das regiões polares.

Montanhas, bordas de crateras e até pequenas irregularidades no terreno conseguem bloquear a luz solar.

O resultado é um cenário de enormes contrastes.

Enquanto algumas áreas permanecem iluminadas durante longos períodos, determinadas depressões ficam mergulhadas em sombras por muito tempo. Algumas delas podem ser permanentemente sombreadas.

Essas regiões atingem temperaturas extremamente baixas e recebem muito menos radiação ultravioleta.

Para determinados microrganismos, essas pequenas sombras poderiam funcionar como verdadeiros abrigos.

Um fungo comum foi o mais resistente

Fungo Aranha
© Unsplash

Entre os organismos analisados, Aspergillus niger apresentou os melhores resultados.

O fungo é extremamente comum na Terra e pode ser encontrado em ambientes como banheiros e sistemas de ventilação.

Sua resistência à radiação ultravioleta fez com que os modelos previssem que ele poderia continuar viável até mesmo em alguns pontos da Lua que recebem certa quantidade de luz solar.

Nas regiões permanentemente sombreadas, outros microrganismos também poderiam encontrar condições compatíveis com uma sobrevivência temporária.

A palavra fundamental, entretanto, é “sobrevivência”.

O estudo não demonstra que essas bactérias e fungos conseguiriam crescer, formar colônias ou se reproduzir na superfície lunar. Apenas indica que algumas células podem permanecer viáveis durante determinado período.

Astronautas inevitavelmente levarão micróbios para a Lua

A descoberta ganha importância diante dos planos de levar seres humanos novamente à superfície lunar.

Astronautas carregam consigo uma enorme comunidade de microrganismos. A NASA lembra que milhões de bactérias podem habitar pequenas áreas da pele humana.

Sondas, rovers, equipamentos científicos e espaçonaves também podem transportar micróbios terrestres.

Mesmo com rigorosos protocolos de esterilização e controle de contaminação, eliminar completamente esses organismos é extremamente difícil.

Isso significa que a presença humana inevitavelmente modificará, em algum nível, o ambiente biológico e químico dos locais explorados.

“Quando pensamos na Lua, normalmente não pensamos em biologia, mas a Lua é um lugar onde uma célula pode sobreviver”, explica Graham.

Os primeiros seres vivos encontrados podem ser os nossos

A preocupação vai muito além da Lua.

Se microrganismos terrestres conseguem permanecer viáveis em ambientes extraterrestres, futuras missões precisarão ser extremamente cuidadosas ao procurar sinais de vida.

Marte é um dos maiores exemplos.

Cientistas pretendem analisar o planeta em busca de moléculas orgânicas, assinaturas químicas e possíveis evidências de processos biológicos. Mas qualquer descoberta precisará ser diferenciada da contaminação levada da própria Terra.

“Precisamos entender o que estava lá antes de nós, porque quando formos a Marte procurar sinais de vida além do nosso planeta, queremos ter certeza de que não se trata de algo que nós mesmos levamos”, afirma Graham.

Contaminação pode dificultar a busca por vida extraterrestre

O mesmo problema pode surgir na Lua.

Se futuras missões encontrarem moléculas orgânicas ou sinais relacionados a processos biológicos em regiões anteriormente visitadas por astronautas, será necessário descobrir sua verdadeira origem.

A assinatura estava ali antes da chegada dos humanos ou foi transportada por uma espaçonave, um traje espacial ou pela própria microbiota dos astronautas?

Essa diferença pode ser extremamente difícil de determinar.

Por isso, os pesquisadores defendem que as primeiras missões ao polo sul lunar façam uma caracterização cuidadosa da química e do ambiente desses locais antes que a presença humana os modifique significativamente.

A descoberta não transforma a Lua em um lugar habitável. Mas mostra que a fronteira entre um ambiente completamente estéril e um local onde uma célula consegue sobreviver pode ser mais tênue do que imaginávamos.

E isso cria um paradoxo curioso para a exploração espacial: os primeiros organismos vivos que encontrarmos em outro mundo talvez não sejam extraterrestres. Podem ter viajado até lá conosco.

 

[ Fonte: La Razón ]

 

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