Um dos maiores mistérios de Vênus pode estar prestes a ser resolvido. Um grupo de cientistas descobriu um possível mecanismo geológico que explica a formação das chamadas “coroas de Vênus” — enormes estruturas circulares que cobrem a superfície do planeta e há anos intrigam astrônomos e geólogos.
Um “teto de vidro” no interior de Vênus
De acordo com um estudo publicado na revista PNAS, o interior de Vênus abriga algo semelhante a um “teto de cristal” no manto, capaz de aprisionar calor e gerar lentas correntes subterrâneas. Essas correntes, segundo os autores, distorcem e elevam a crosta, dando origem às gigantescas coroas observadas por sondas espaciais.
O trabalho foi liderado por Madeleine Kerr, doutoranda do Instituto Scripps de Oceanografia, da Universidade da Califórnia em San Diego, e propõe um modelo que reconcilia observações anteriores com simulações recentes de fluxo térmico e deformação geológica.
“Durante muito tempo, as coroas foram um quebra-cabeça porque não se encaixavam em nenhum processo tectônico conhecido”, explicou Kerr. “Nosso modelo mostra que o calor preso sob essa camada rígida cria padrões convectivos lentos que moldam essas estruturas ao longo de milhões de anos.”
Why Venus? Scientists believe that Venus once resembled Earth and may have even been habitable, but now it's unbearably hot and covered in clouds of sulfuric acid. What happened? DAVINCI+ and VERITAS aim to find out.
📷: @NASAGoddard Conceptual Image Lab pic.twitter.com/NwCOM0XSGZ
— NASA Solar System (@NASASolarSystem) June 2, 2021
O planeta gêmeo, mas tão diferente da Terra
Apesar de serem frequentemente chamados de “planetas gêmeos”, Vênus e Terra têm dinâmicas internas muito distintas. A Terra possui placas tectônicas que se movem e reciclam a crosta, enquanto Vênus tem uma crosta contínua e imóvel. Essa diferença fez com que cientistas buscassem explicações alternativas para fenômenos geológicos venusianos.
Desde as primeiras observações detalhadas feitas pelas sondas Magellan e Venus Express, os pesquisadores identificaram mais de 700 coroas espalhadas pelo planeta — algumas com diâmetros de centenas de quilômetros. Mas até agora, nenhuma teoria havia conseguido explicar completamente sua origem.
Um novo modelo para o enigma geológico
A pesquisa indica que o tamanho das coroas pode revelar a natureza das forças internas de Vênus. As coroas maiores estariam associadas a colunas ascendentes do manto, semelhantes às plumas mantélicas que formam ilhas vulcânicas na Terra. Já as menores seriam resultado de afloramentos de calor localizados, que deformam a crosta em escalas mais restritas.
O “teto de cristal” descrito pelos cientistas funcionaria como uma camada intermediária viscosa, que retém o calor sob a crosta e modula o ritmo das correntes térmicas. Esse processo explicaria não apenas a forma das coroas, mas também a ausência de atividade tectônica global em Vênus.
Olhar para o futuro: novas missões e respostas
A descoberta chega em um momento oportuno: a NASA e a ESA preparam novas missões para Vênus — VERITAS e EnVision — que devem fornecer mapas de alta resolução do relevo e da composição da superfície. Esses dados poderão confirmar se o “teto de cristal” realmente existe e se o modelo de Kerr e sua equipe explica a formação das coroas.
Se confirmada, a teoria pode redefinir a compreensão sobre como planetas rochosos dissipam calor e evoluem geologicamente, aproximando os mistérios de Vênus das respostas que faltam sobre a própria Terra.
[ Fonte: Rosario3 ]