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Tecnologia

Mistério nas profundezas: o iPad achado no rio Tâmisa que desvendou uma rede internacional de crimes

Escondido sob a lama por mais de cinco anos, um simples iPad foi a peça-chave que conectou tiroteios, roubos milionários e uma tentativa de assassinato, revelando um esquema criminoso internacional.
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Tempo de leitura: 5 minutos

O que liga um tiroteio contra um ex-ladrão de banco, o roubo de relíquias da dinastia Ming e um assalto a um condomínio de luxo? A resposta veio do fundo do rio Tâmisa. Um iPad enterrado sob a areia e lama por mais de cinco anos foi resgatado por policiais em Londres e acabou se tornando o elo que faltava para conectar uma série de crimes complexos. A partir dele, foi possível identificar três homens ligados a uma tentativa de homicídio e a uma rede internacional de atividades criminosas.

O iPad no Tâmisa que mudou o rumo da investigação

Em novembro do ano passado, um policial que usava um detector de metais encontrou um iPad submerso às margens do rio Tâmisa. O aparelho, coberto por lama e detritos, foi cuidadosamente limpo e examinado pela perícia. Para surpresa dos investigadores, o compartimento do chip ainda continha um cartão SIM da operadora Vodafone.

A análise dos dados de chamadas revelou ligações entre o dispositivo e três suspeitos já conhecidos da polícia: Louis Ahearne, Stewart Ahearne e Daniel Kelly. Esses nomes estavam envolvidos em uma série de delitos, incluindo o roubo de artefatos valiosos e um ataque armado que deixou uma vítima permanentemente paralisada.

Uma conspiração para matar

Em julho de 2019, Paul Allen, um conhecido ex-assaltante condenado por participar do maior roubo a banco da história do Reino Unido, sofreu um ataque em sua casa alugada, em Woodford, leste de Londres. Seis tiros atravessaram as janelas da propriedade, atingindo Allen no dedo e na garganta. O ataque deixou-o paralisado da cintura para baixo.

As investigações indicaram que Louis e Stewart Ahearne, junto com Daniel Kelly, haviam orquestrado o ataque. A operação envolveu um carro alugado, telefones descartáveis e vigilância prévia à residência de Allen. A polícia só conseguiu estabelecer o vínculo entre os suspeitos e a cena do crime após a recuperação dos dados no iPad.

O elo com o roubo em Genebra

Um mês antes do tiroteio, os irmãos Ahearne e Kelly participaram do roubo ao Museu de Arte do Extremo Oriente, em Genebra, Suíça. Armados com marretas e pés de cabra, eles invadiram o local e roubaram três itens valiosos da dinastia Ming — entre eles, um raro vaso, uma taça de vinho decorada e uma tigela de porcelana. O valor total dos itens ultrapassava £2,8 milhões.

A fuga foi precipitada e deixou rastros. Stewart Ahearne arranhou o abdômen em uma porta danificada, deixando vestígios de DNA. Ele também havia alugado o carro usado na fuga, um Renault Koleos, no aeroporto de Genebra. Imagens de segurança mostraram Louis circulando pelo museu no dia anterior ao roubo.

Dias depois, os três voltaram ao Reino Unido e tentaram vender os artefatos roubados. Foram até Hong Kong e, posteriormente, tentaram negociar com uma casa de leilões. A instituição alertou as autoridades, que organizaram uma operação com agentes disfarçados, culminando na recuperação de parte dos itens e na prisão de cúmplices.

O rastro deixado após o ataque a Allen

A investigação do tiroteio revelou novos elementos. A polícia encontrou cápsulas de munição de uma pistola Glock e marcas de DNA de Louis e Kelly na cerca da casa. Imagens de câmeras de segurança captaram o carro usado no ataque, um Renault Captur alugado por Stewart, que também foi filmado comprando bebidas em um posto de gasolina com os outros suspeitos pouco antes do crime.

Dias antes, o mesmo veículo havia sido usado em outro roubo, em Kent. O grupo invadiu um condomínio de luxo fingindo ser da polícia e levou objetos valiosos. A polícia ligou esse roubo ao mesmo trio, com registros de locação, imagens e rastreamento por GPS.

A revelação decisiva: o trajeto até o Tâmisa

Foi somente em outubro de 2024, meses antes do julgamento, que um detalhe intrigante mudou tudo. Louis Ahearne afirmou, em sua declaração de defesa, que ele e Kelly haviam parado na John Harrison Way, próximo ao Tâmisa, no dia do ataque a Allen. Enquanto ele permanecia no carro, Kelly saiu a pé na direção do rio.

Essa informação despertou a atenção dos investigadores, que decidiram vasculhar a área. Foi ali que, com a ajuda de um detector de metais, encontraram o iPad enterrado. O aparelho havia sido descartado, mas não destruído — e continha dados valiosos que os suspeitos nunca imaginaram que poderiam ser recuperados.

Um dispositivo, várias conexões

Com acesso ao chip, os policiais descobriram chamadas feitas para os irmãos Ahearne, rastros de GPS e contas de e-mail ligadas a Kelly e a um cúmplice. Além disso, localizaram registros de compras feitas em nome deles na Amazon e no eBay, incluindo a aquisição de telefones pré-pagos, usados para comunicação durante o plano de assassinato.

Esses dados mostraram que o cartão SIM permaneceu ativo até pouco antes do tiroteio. A localização fornecida pelos registros celulares ajudou a montar a linha do tempo e reforçou a ligação direta entre o grupo e o atentado contra Allen.

Vereditos e novas pistas

Em março de 2025, após um julgamento de sete semanas no tribunal de Old Bailey, os três acusados foram considerados culpados por conspiração para assassinato. As sentenças estão previstas para abril.

Durante o julgamento, Louis tentou transferir a culpa do tiroteio para Kelly, o que gerou tensões entre os réus. Em uma das audiências, Kelly foi flagrado gritando contra Louis em um veículo de transporte da prisão, chamando-o de “dedo-duro”.

Apesar das condenações, o investigador Webb afirmou que a investigação continua. O caso revelou conexões com crimes fora do Reino Unido e pode envolver outros membros ainda não identificados da rede criminosa.

Um caso, uma peça-chave

A descoberta do iPad mostrou o poder da persistência investigativa e da tecnologia forense. O objeto, aparentemente sem valor após anos no fundo de um rio, acabou se tornando o elemento central de um caso internacional, revelando crimes que iam desde tentativas de assassinato até o tráfico de obras de arte.

Como destacou Webb: “Você continua procurando e continua encontrando.” A história do iPad no Tâmisa é mais do que uma curiosidade — é a prova de que, mesmo os detalhes mais improváveis, podem mudar o rumo de uma investigação inteira.

[Fonte: G1 – Globo]

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