Um grupo de cientistas do renomado Instituto Weizmann de Ciências, em Israel, desenvolveu uma técnica inovadora que transforma a ressonância magnética (RM) em uma ferramenta capaz de mostrar a atividade de genes dentro do corpo, em tempo real e com cores distintas. A descoberta promete avanços significativos em áreas como o tratamento do câncer, doenças neurológicas e pesquisas com células-tronco.
Muito além das imagens em preto e branco

Desde que foi criada, a ressonância magnética tem sido usada para visualizar estruturas internas do corpo em tons de cinza. No entanto, entender o que está acontecendo no nível celular — especialmente quais genes estão ativos — sempre foi um desafio. Até hoje, os métodos mais usados envolviam proteínas fluorescentes que funcionam bem sob microscópios, mas não são eficazes para observar tecidos mais profundos.
A equipe liderada pelo Dr. Amnon Bar-Shir encontrou uma solução elegante: adaptar a ressonância magnética para rastrear a expressão de dois genes diferentes ao mesmo tempo, usando sinais distintos, cada um “colorido” por uma frequência específica da RM. Isso permite mapear a localização e a atividade de genes de forma inédita, com um nível de detalhe nunca antes alcançado sem métodos invasivos.
Como o novo método funciona

O processo ocorre em duas etapas principais. Primeiro, os cientistas modificaram geneticamente dois grupos de células para que produzissem proteínas específicas. Em seguida, injetaram no sangue dos animais uma mistura de duas sondas moleculares, projetadas para se acumular apenas nas células que expressam essas proteínas.
Cada sonda foi ajustada para emitir sinais distintos de ressonância magnética — o que permite que os pesquisadores vejam, por exemplo, uma célula “acendendo” em verde e outra em rosa. Tudo isso foi testado com sucesso em camundongos vivos, utilizando um poderoso equipamento de RM com um ímã de 15 teslas, um dos poucos no mundo com essa capacidade.
Aplicações médicas promissoras
A Dra. Hyla Allouche-Arnon, que coordenou o estudo, destaca que a técnica pode ajudar a entender a atuação de diferentes tipos de células em condições específicas, como no cérebro ou no sistema imunológico. O método poderá ser usado para acompanhar o progresso de tratamentos, observar como regiões do cérebro interagem ou monitorar a eficácia de terapias celulares.
No futuro, esse avanço pode permitir que os médicos rastreiem mais de dois genes simultaneamente e acompanhem o comportamento de células tumorais e terapêuticas durante o combate ao câncer — tudo isso sem a necessidade de biópsias ou intervenções cirúrgicas.
Uma nova era na pesquisa genética
O Prêmio Nobel de Química de 2008 já havia premiado o uso de proteínas fluorescentes para observar genes, mas o próprio laureado Roger Tsien previu que novas tecnologias, como a ressonância magnética, seriam necessárias para ir além. A técnica desenvolvida agora representa a materialização dessa visão.
Se adaptada com segurança para humanos, a ressonância magnética multicolorida poderá se tornar uma das ferramentas mais poderosas da medicina moderna. Seria possível ver, literalmente, a vida acontecendo dentro de nós — com cor, precisão e, o mais importante, sem precisar abrir o corpo.
Fonte: Infobae