Pular para o conteúdo
Ciência

Não é apenas ter árvores: a característica que pode fazer toda a diferença para a saúde

Pesquisadores acompanharam milhares de mortes durante uma década e encontraram uma pista surpreendente sobre o que realmente importa quando uma cidade ganha mais áreas verdes.
Por

Tempo de leitura: 3 minutos

Ter árvores nas cidades costuma ser associado a uma vida mais saudável. Elas oferecem sombra, ajudam a reduzir o calor, filtram parte da poluição e tornam os espaços urbanos mais agradáveis. Mas existe uma questão menos óbvia: será que simplesmente contar quantas árvores existem em determinado lugar é suficiente para medir esse benefício?

Uma análise realizada ao longo de dez anos encontrou uma pista diferente. E ela sugere que, quando o assunto é vegetação urbana, o tempo pode ser tão importante quanto a quantidade.

A pista apareceu depois de uma década de observação

Para investigar a relação entre vegetação e saúde, pesquisadores analisaram 801 setores censitários de Chicago, nos Estados Unidos, entre 2011 e 2021. O estudo reuniu informações anuais sobre cobertura de árvores, temperatura, poluição e características sociodemográficas.

Durante esse período, foram registrados nada menos que 220.711 óbitos nas áreas analisadas.

O resultado trouxe uma diferença importante. Ter uma grande quantidade de cobertura arbórea em determinado momento, isoladamente, não apresentou uma associação estatisticamente significativa com uma redução da mortalidade geral.

O que chamou a atenção foi outra variável: o crescimento contínuo da cobertura vegetal ao longo dos anos.

De acordo com o estudo, o aumento anual da área coberta por árvores esteve associado a uma redução próxima de 10% na mortalidade geral e de aproximadamente 11% nas mortes relacionadas a doenças respiratórias.

Isso não significa que plantar uma árvore faça automaticamente a mortalidade de um bairro cair nesses percentuais. Trata-se de uma associação observada em escala urbana, influenciada por diversos fatores ambientais, econômicos e sociais.

Ainda assim, a descoberta muda a perspectiva. Em vez de pensar apenas em quantas árvores uma cidade possui hoje, pode ser mais importante observar se sua floresta urbana está crescendo e sendo preservada.

árvores1
© Magnific

Uma árvore recém-plantada ainda está longe de entregar todo o seu potencial

Existe outro elemento que ajuda a explicar por que o tempo pode fazer tanta diferença: a maturidade das árvores.

Uma pesquisa anterior realizada em Portland, também nos Estados Unidos, acompanhou durante três décadas diferentes áreas onde árvores urbanas haviam sido plantadas. Os resultados indicaram uma associação entre a presença desses exemplares e menores taxas de mortalidade cardiovascular e de mortalidade por causas não acidentais.

Mas havia uma característica especialmente interessante: os benefícios eram mais evidentes conforme os exemplares tinham mais tempo para crescer.

Isso faz sentido quando observamos a própria estrutura de uma árvore. Um exemplar jovem possui uma copa relativamente pequena, oferece menos sombra e apresenta uma capacidade limitada de capturar partículas e modificar o microclima ao redor.

Décadas depois, a situação é completamente diferente.

Uma árvore madura possui uma copa muito maior e uma área foliar significativamente superior. Ela consegue bloquear mais radiação solar, liberar mais água por evapotranspiração e ajudar a resfriar o ambiente. Também pode contribuir para a retenção de determinados poluentes atmosféricos.

Por isso, plantar novas árvores continua sendo fundamental. Mas proteger aquelas que já cresceram pode ser igualmente importante — ou até mais valioso em determinados contextos.

O verdadeiro desafio pode estar em fazer a floresta urbana sobreviver

Os benefícios não terminam na sombra. Durante ondas de calor, a vegetação urbana pode ajudar a reduzir temperaturas superficiais e amenizar a chamada ilha de calor, fenômeno especialmente intenso em áreas com muito concreto e asfalto.

Modelos aplicados a 744 cidades europeias também indicaram que um aumento de 5% na cobertura arbórea poderia reduzir determinados poluentes, incluindo ozônio e partículas finas PM2,5, potencialmente diminuindo mortes associadas à poluição.

Mas existe uma ressalva importante: não basta simplesmente plantar árvores em qualquer lugar.

A distribuição das áreas verdes, sua conectividade e o grau de fragmentação também podem determinar quanto benefício chega aos moradores. Um grande parque isolado pode desempenhar uma função diferente de uma rede contínua de ruas arborizadas, praças e pequenos espaços verdes.

Além disso, a vegetação urbana está associada a outros possíveis benefícios, como redução do estresse, incentivo à atividade física e melhores indicadores relacionados à saúde mental.

A grande lição, portanto, vai além de uma simples campanha para plantar mais árvores. As cidades precisam criar condições para que elas sobrevivam, cresçam e alcancem a maturidade.

E talvez esteja justamente aí o detalhe que costuma passar despercebido: uma árvore não entrega seu máximo potencial no dia em que é plantada. Em muitos casos, os benefícios mais importantes começam a aparecer somente depois de muitos anos — e podem continuar aumentando à medida que ela cresce.

Partilhe este artigo

Artigos relacionados