Existe um “norte” que não aparece nos mapas comuns e que está constantemente mudando de lugar. Ele fica milhares de quilômetros abaixo da superfície terrestre e influencia desde bússolas até sistemas de navegação. Nos últimos anos, porém, seu comportamento ganhou um novo capítulo: depois de acelerar durante décadas em direção à Rússia, ele começou a desacelerar de maneira inesperada.
Um ponto invisível que nunca ficou realmente parado
O polo norte magnético não é a mesma coisa que o Polo Norte geográfico. Enquanto o segundo é definido pelo eixo de rotação da Terra, o primeiro corresponde à região para a qual apontam as bússolas e está diretamente relacionada ao campo magnético do planeta.
E ele se move.
A origem desse deslocamento está no núcleo externo da Terra, a cerca de 3.000 quilômetros de profundidade. Ali, enormes quantidades de ferro líquido extremamente quente estão em movimento constante. Essa dinâmica ajuda a produzir o campo magnético terrestre, uma espécie de escudo invisível que protege o planeta contra parte das partículas do vento solar e da radiação espacial.
Desde que foi identificado oficialmente, em 1831, pelo explorador britânico James Clark Ross, o polo norte magnético já percorreu mais de 2.200 quilômetros. Durante muito tempo, ele permaneceu relativamente próximo do Canadá.
Mas isso começou a mudar de maneira bastante evidente no século XX.
A velocidade de deslocamento, que era de aproximadamente 15 quilômetros por ano em meados do século passado, aumentou progressivamente até atingir entre 50 e 60 quilômetros anuais no início dos anos 2000.
O polo parecia estar acelerando cada vez mais em direção à Sibéria.
Então, por volta de 2020, aconteceu algo que não estava previsto.

A desaceleração que pegou os cientistas de surpresa
O ritmo de deslocamento caiu significativamente. As medições mais recentes indicam uma velocidade próxima de 35 quilômetros por ano, uma desaceleração considerada a maior já registrada desde que o fenômeno passou a ser monitorado de maneira sistemática.
A mudança não significa que o polo tenha parado ou começado a retornar ao Canadá. Ele continua avançando em direção à Sibéria, mas agora o faz muito mais lentamente.
Uma das principais explicações envolve justamente o que acontece no interior do planeta.
Os cientistas trabalham com a hipótese de que mudanças nos movimentos do ferro líquido estejam alterando a distribuição do campo magnético. No hemisfério norte, dois grandes “lóbulos” magnéticos, associados às regiões sob o Canadá e a Sibéria, parecem disputar influência sobre a posição do polo.
Durante as décadas de aceleração, o enfraquecimento relativo da região canadense pode ter favorecido o deslocamento em direção à Sibéria. A alteração mais recente nesse equilíbrio, por sua vez, poderia explicar a desaceleração.
Ainda assim, não existe uma resposta definitiva.
E é justamente essa imprevisibilidade que torna o fenômeno tão importante para os cientistas.
O movimento também afeta tecnologias do nosso dia a dia
A posição do polo magnético não interessa apenas aos pesquisadores. Ela precisa ser constantemente incorporada aos modelos usados pela navegação moderna.
Um dos principais é o World Magnetic Model (WMM), desenvolvido pela NOAA, dos Estados Unidos, em parceria com o British Geological Survey, do Reino Unido. O modelo é atualizado normalmente a cada cinco anos e serve como referência para sistemas de navegação utilizados por aeronaves, embarcações, forças militares, agências espaciais e diversos dispositivos eletrônicos.
A versão WMM2025 entrou em vigor no fim de 2024 e deve permanecer válida até 2029, a menos que uma alteração extraordinária no campo magnético exija uma atualização antecipada.
A edição mais recente também trouxe uma versão de alta resolução, o WMMHR2025, capaz de representar o campo magnético com uma precisão muito maior, especialmente útil nas regiões polares.
Para quem usa o celular para encontrar um restaurante, provavelmente nada disso será perceptível. Mas em aviões que atravessam grandes distâncias, navios em alto-mar e operações próximas aos polos, pequenas diferenças na orientação magnética podem se tornar relevantes.
O movimento atual é, portanto, um fenômeno natural e não representa uma ameaça imediata à população. A Terra já passou por inúmeras mudanças em seu campo magnético ao longo de sua história.
No futuro distante, inclusive, poderá ocorrer uma inversão completa dos polos magnéticos. Mas esse é um processo que acontece em escalas de milhares de anos.
Por enquanto, a grande surpresa está acontecendo muito mais rápido: o polo que durante duas décadas parecia acelerar cada vez mais para a Sibéria simplesmente reduziu seu ritmo — e os cientistas ainda tentam entender exatamente por quê.