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Ciência

A mudança no interior da Terra que pode explicar um movimento visto no Ártico

Durante décadas, um ponto invisível no Ártico parecia seguir uma trajetória previsível. Então, algo mudou de repente e obrigou os cientistas a acompanhar seus próximos movimentos com atenção.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Existe um “norte” que não aparece nos mapas comuns e que está constantemente mudando de lugar. Ele fica milhares de quilômetros abaixo da superfície terrestre e influencia desde bússolas até sistemas de navegação. Nos últimos anos, porém, seu comportamento ganhou um novo capítulo: depois de acelerar durante décadas em direção à Rússia, ele começou a desacelerar de maneira inesperada.

Um ponto invisível que nunca ficou realmente parado

O polo norte magnético não é a mesma coisa que o Polo Norte geográfico. Enquanto o segundo é definido pelo eixo de rotação da Terra, o primeiro corresponde à região para a qual apontam as bússolas e está diretamente relacionada ao campo magnético do planeta.

E ele se move.

A origem desse deslocamento está no núcleo externo da Terra, a cerca de 3.000 quilômetros de profundidade. Ali, enormes quantidades de ferro líquido extremamente quente estão em movimento constante. Essa dinâmica ajuda a produzir o campo magnético terrestre, uma espécie de escudo invisível que protege o planeta contra parte das partículas do vento solar e da radiação espacial.

Desde que foi identificado oficialmente, em 1831, pelo explorador britânico James Clark Ross, o polo norte magnético já percorreu mais de 2.200 quilômetros. Durante muito tempo, ele permaneceu relativamente próximo do Canadá.

Mas isso começou a mudar de maneira bastante evidente no século XX.

A velocidade de deslocamento, que era de aproximadamente 15 quilômetros por ano em meados do século passado, aumentou progressivamente até atingir entre 50 e 60 quilômetros anuais no início dos anos 2000.

O polo parecia estar acelerando cada vez mais em direção à Sibéria.

Então, por volta de 2020, aconteceu algo que não estava previsto.

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© Alex Perez – Unsplash

A desaceleração que pegou os cientistas de surpresa

O ritmo de deslocamento caiu significativamente. As medições mais recentes indicam uma velocidade próxima de 35 quilômetros por ano, uma desaceleração considerada a maior já registrada desde que o fenômeno passou a ser monitorado de maneira sistemática.

A mudança não significa que o polo tenha parado ou começado a retornar ao Canadá. Ele continua avançando em direção à Sibéria, mas agora o faz muito mais lentamente.

Uma das principais explicações envolve justamente o que acontece no interior do planeta.

Os cientistas trabalham com a hipótese de que mudanças nos movimentos do ferro líquido estejam alterando a distribuição do campo magnético. No hemisfério norte, dois grandes “lóbulos” magnéticos, associados às regiões sob o Canadá e a Sibéria, parecem disputar influência sobre a posição do polo.

Durante as décadas de aceleração, o enfraquecimento relativo da região canadense pode ter favorecido o deslocamento em direção à Sibéria. A alteração mais recente nesse equilíbrio, por sua vez, poderia explicar a desaceleração.

Ainda assim, não existe uma resposta definitiva.

E é justamente essa imprevisibilidade que torna o fenômeno tão importante para os cientistas.

O movimento também afeta tecnologias do nosso dia a dia

A posição do polo magnético não interessa apenas aos pesquisadores. Ela precisa ser constantemente incorporada aos modelos usados pela navegação moderna.

Um dos principais é o World Magnetic Model (WMM), desenvolvido pela NOAA, dos Estados Unidos, em parceria com o British Geological Survey, do Reino Unido. O modelo é atualizado normalmente a cada cinco anos e serve como referência para sistemas de navegação utilizados por aeronaves, embarcações, forças militares, agências espaciais e diversos dispositivos eletrônicos.

A versão WMM2025 entrou em vigor no fim de 2024 e deve permanecer válida até 2029, a menos que uma alteração extraordinária no campo magnético exija uma atualização antecipada.

A edição mais recente também trouxe uma versão de alta resolução, o WMMHR2025, capaz de representar o campo magnético com uma precisão muito maior, especialmente útil nas regiões polares.

Para quem usa o celular para encontrar um restaurante, provavelmente nada disso será perceptível. Mas em aviões que atravessam grandes distâncias, navios em alto-mar e operações próximas aos polos, pequenas diferenças na orientação magnética podem se tornar relevantes.

O movimento atual é, portanto, um fenômeno natural e não representa uma ameaça imediata à população. A Terra já passou por inúmeras mudanças em seu campo magnético ao longo de sua história.

No futuro distante, inclusive, poderá ocorrer uma inversão completa dos polos magnéticos. Mas esse é um processo que acontece em escalas de milhares de anos.

Por enquanto, a grande surpresa está acontecendo muito mais rápido: o polo que durante duas décadas parecia acelerar cada vez mais para a Sibéria simplesmente reduziu seu ritmo — e os cientistas ainda tentam entender exatamente por quê.

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