Durante séculos, aprendemos a medir o mundo em segundos, minutos e horas. Mesmo quando falamos de fenômenos extremamente rápidos, ainda pensamos dentro de limites que o cérebro consegue imaginar. Mas a natureza opera em outra cadência. No interior dos átomos, onde tudo se constrói, o tempo corre em uma escala tão extrema que só agora a ciência começa a alcançá-la. Esse novo território promete mudar a forma como entendemos a matéria, a energia e a própria tecnologia.
O território invisível onde tudo começa
Existe um intervalo de tempo tão curto que, até pouco tempo atrás, era apenas um conceito matemático. Ele se chama attossegundo — a bilionésima de bilionésima parte de um segundo. Para ter uma noção, é aproximadamente o tempo que a luz leva para atravessar um átomo. É nessa escala que os elétrons se movem, trocam energia e determinam como a matéria se organiza.
Os elétrons não são um detalhe microscópico irrelevante. Eles definem as ligações químicas, a condução elétrica, as propriedades dos materiais e até processos biológicos fundamentais. O problema sempre foi o mesmo: tudo isso acontece rápido demais para ser observado diretamente. Durante décadas, os físicos só conseguiam descrever esses fenômenos por meio de equações e modelos teóricos.
Esse cenário começou a mudar quando a física aprendeu a gerar pulsos de luz ultracurtos, capazes de “congelar” o movimento eletrônico. O reconhecimento veio em 2023, com o Prêmio Nobel de Física dedicado justamente a essas técnicas. Desde então, a corrida não é mais para calcular — é para observar.
Um cientista, lasers extremos e a obsessão pelo invisível
É nesse contexto que surge o trabalho de Allan Johnson, físico canadense radicado na Espanha. Pesquisador do IMDEA Nanociência, ele atua em uma das áreas mais radicais da física experimental: a criação de pulsos de attossegundos usando lasers de altíssima intensidade.
O método está longe de ser delicado. Os lasers utilizados concentram tanta energia que, no ponto focal, atingem temperaturas superiores às da superfície do Sol. O impacto cria um plasma, arranca elétrons dos átomos e gera um breve clarão de raios X. Esse clarão, com duração de poucos attossegundos, funciona como uma lanterna capaz de iluminar processos que antes eram completamente invisíveis.
Não se trata de espetáculo tecnológico. Esse pulso é uma ferramenta científica. Com ele, torna-se possível observar como os elétrons se reorganizam, como a energia flui e como nascem reações fundamentais da matéria.
Por que medir o tempo tão rápido muda tudo
À primeira vista, estudar frações absurdas de segundo pode parecer um luxo acadêmico. Mas as implicações são profundamente práticas. Ainda hoje, uma parte significativa da eletricidade gerada no mundo se perde durante o transporte. Entender o comportamento eletrônico dos materiais é essencial para reduzir essas perdas, aumentar a eficiência energética e desenvolver tecnologias mais sustentáveis.
Além disso, os chamados materiais quânticos desafiam as regras clássicas da física. Neles, os elétrons agem de forma coletiva, dando origem a fenômenos como a supercondutividade e estados magnéticos exóticos. Sem observar o que acontece na escala do attossegundo, esses materiais permanecem, em grande parte, uma caixa-preta.
O recorde que empurrou o limite do tempo
Enquanto pesquisas avançam em Madri, um marco histórico foi alcançado em Barcelona. Cientistas do Instituto de Ciências Fotônicas conseguiram gerar um pulso de raios X de apenas 19,2 attossegundos — o mais curto já produzido. É um intervalo menor até do que o chamado “ano atômico”, o tempo que um elétron leva para orbitar o átomo de hidrogênio.
Esse recorde não é apenas simbólico. Ele abre a possibilidade de observar processos em tempo real: como uma reação química começa, como a energia se redistribui em uma molécula ou como um material responde a um estímulo externo no instante exato em que tudo acontece.
Quando o tempo vira a nova fronteira
As aplicações ainda não são imediatas, mas são profundas. Da criação de novos tipos de chips e sensores ultrassensíveis ao avanço da computação quântica e de materiais projetados sob medida, tudo passa por compreender o comportamento eletrônico em sua escala natural.
Depois de explorar o espaço e o interior da matéria, a ciência agora explora o tempo — não o tempo filosófico, mas o tempo físico, o menor possível. O segundo deixou de ser a unidade fundamental da realidade. No nível em que a matéria se constrói, o relógio bate em attossegundos. E, pela primeira vez, não estamos apenas calculando esse mundo. Estamos olhando para ele.