Quando existem inúmeras séries, filmes, personagens e linhas temporais, conquistar novos espectadores pode ser tão complicado quanto satisfazer os fãs veteranos. A Netflix acredita ter encontrado uma saída para esse problema em sua próxima grande aposta de ficção científica: contar uma história independente, colocar dois nomes conhecidos de Hollywood no centro do conflito e preservar aquilo que tornou Gundam muito maior do que simplesmente robôs gigantes lutando.
Netflix encontrou uma maneira de apresentar Gundam para quem nunca viu o anime
A adaptação live-action de Mobile Suit Gundam preparada para a Netflix não exigirá que o espectador faça uma maratona de décadas de produções antes de apertar o play.
A estratégia será desenvolver uma história independente ambientada no universo criado por Yoshiyuki Tomino. Dessa maneira, personagens e acontecimentos poderão ser compreendidos sem conhecimento prévio das inúmeras séries, filmes e cronologias que formam a franquia.
A responsabilidade está nas mãos do diretor James Mickle, conhecido por trabalhos como Stake Land. O cineasta pretende construir uma porta de entrada para Gundam sem abandonar os temas que ajudaram a transformar a obra em uma referência da ficção científica japonesa.
Isso significa que os robôs gigantes, conhecidos como mobile suits, serão apenas parte do espetáculo.
Desde sua estreia em 1979, Gundam utilizou guerras futuristas para discutir poder, política, militarização e as consequências humanas dos conflitos. Em muitas histórias da franquia, a pergunta mais importante não é qual máquina possui o maior poder de fogo, mas o que acontece com as pessoas obrigadas a pilotá-las.
Essa filosofia também estará no centro do novo filme.
E a Netflix escolheu dois nomes conhecidos para representar os lados opostos dessa guerra.
Sydney Sweeney e Noah Centineo estarão em lados opostos

Sydney Sweeney e Noah Centineo serão os protagonistas da adaptação, interpretando pilotos pertencentes a facções inimigas.
A história acontecerá durante uma guerra interplanetária entre a Terra e antigas colônias humanas estabelecidas no espaço.
Inicialmente, os dois personagens estarão separados pelas próprias lealdades e convicções. Conforme o conflito avança, porém, essa rivalidade deverá se transformar em uma relação muito mais complicada.
A Netflix chegou a comparar a dinâmica da dupla a Romeu e Julieta. A referência indica uma história na qual duas pessoas pertencentes a mundos rivais começam a perceber que a realidade não corresponde exatamente às versões do conflito que aprenderam a defender.
Para os fãs veteranos, essa abordagem não é completamente estranha.
Uma das produções mais lembradas da franquia, Mobile Suit Gundam: The 08th MS Team, minissérie lançada originalmente em 1996, também explorava o lado humano da guerra e colocava relações pessoais acima da simples destruição provocada pelas máquinas.
James Mickle já indicou que pretende seguir uma filosofia semelhante.
Durante uma Gundam Conference, o diretor ressaltou a importância da escala e do espetáculo, mas deixou claro que os personagens precisam continuar no centro da narrativa.
Essa escolha será crucial para determinar se a adaptação conseguirá escapar de uma armadilha bastante conhecida das grandes produções de ficção científica: investir tanto em efeitos visuais que os protagonistas desaparecem atrás deles.
Os robôs serão gigantes, mas a Netflix não quer depender apenas deles

Visualmente, a produção pretende combinar elementos familiares aos fãs com ideias desenvolvidas especificamente para o filme.
Grandes cenários e componentes emblemáticos estão sendo construídos fisicamente, enquanto os mobile suits devem misturar referências aos designs clássicos com máquinas inéditas.
A estratégia procura equilibrar nostalgia e renovação.
Nem todas as primeiras escolhas, entretanto, foram recebidas com entusiasmo. Alguns fãs criticaram elementos dos figurinos divulgados, especialmente os uniformes, argumentando que o visual parece excessivamente ocidentalizado em comparação com a identidade das produções japonesas.
Esse provavelmente será um dos maiores desafios do projeto.
Gundam não é uma franquia pequena esperando para ser descoberta. No Japão, trata-se de uma propriedade cultural gigantesca, com quase cinco décadas de histórias, produtos, modelos colecionáveis e diferentes gerações de fãs.
Ao mesmo tempo, seu reconhecimento no Ocidente não possui exatamente a mesma dimensão.
A Netflix precisará, portanto, realizar dois movimentos simultaneamente: convencer os veteranos de que compreendeu o material original e apresentar esse universo sem transformar décadas de história em uma barreira para os novatos.
O histórico recente das adaptações de anime mostra que isso é possível, mas está longe de ser garantido. Produções como One Piece ajudaram a diminuir parte da resistência em relação aos live-actions ocidentais, enquanto outros projetos demonstraram como alterações excessivas podem afastar rapidamente o público original.
Para Gundam, o equilíbrio será ainda mais delicado.
As batalhas entre máquinas gigantes precisam transmitir a escala esperada de uma superprodução, mas guerra, política e relações humanas deverão continuar dando sentido a cada confronto.
Se a combinação funcionar, Sydney Sweeney e Noah Centineo podem acabar apresentando a milhões de novos espectadores uma franquia que começou muito antes de ambos nascerem.
E a Netflix terá em mãos algo potencialmente maior do que mais uma adaptação de anime: uma nova porta de entrada para um dos universos de ficção científica mais influentes do Japão.
[Fonte: vandal]