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Ciência

No papel de amante: ilusão, desejo e a busca por validação

Relacionar-se com alguém comprometido pode parecer apenas uma questão de desejo proibido, mas há padrões emocionais profundos por trás desse comportamento. A chamada “Síndrome de Fortunata” revela motivações inconscientes ligadas à infância, autoestima e busca por validação — e entender essas dinâmicas pode ser o primeiro passo para mudar.
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Tempo de leitura: 2 minutos

Inspirada no romance espanhol Fortunata y Jacinta, de Benito Pérez Galdós, a “Síndrome de Fortunata” descreve um padrão emocional comum a pessoas que se envolvem afetivamente com indivíduos comprometidos. Mais do que um triângulo amoroso, esse comportamento reflete uma lógica interna marcada pela ausência, idealização e repetição inconsciente de experiências familiares.

Amar a partir da falta

Segundo a psicóloga Victoria Almiroty, o fascínio pelo papel de amante está ligado à vivência do amor como algo sempre distante ou parcial. A figura do amante representa o desejo sem rotina, um ideal de amor que nunca se concretiza. O foco, muitas vezes, não está na pessoa amada, mas na posição simbólica que ela ocupa: a de alguém que valida, mesmo de forma intermitente.

Repetição de vínculos familiares disfuncionais

As escolhas afetivas podem repetir vínculos da infância. Sigmund Freud já afirmava que o ser humano tende a “repetir em vez de lembrar”. Assim, quem viveu experiências com pais ausentes, afetos condicionais ou relações com pouca segurança emocional pode buscar, inconscientemente, reviver essas dinâmicas na vida adulta.

A psicóloga Carina Mitrani complementa: em muitos casos, a pessoa cresceu disputando afeto ou tendo um dos pais como figura exclusiva e inacessível. Isso cria um padrão de apego baseado na falta e na competição.

Busca por validação e ilusão de controle

A pessoa envolvida com alguém comprometido frequentemente busca se sentir desejada — é como um teste para validar sua atratividade. Mesmo vivendo nas sombras, sem reconhecimento público, há quem aceite essa posição em troca de migalhas de atenção.

Além disso, há uma falsa sensação de controle. Acredita-se que se está no comando da situação ou que, eventualmente, o outro deixará o parceiro oficial. Essa fantasia alimenta a esperança e sustenta o vínculo, mesmo sem garantias.

Vício emocional, vitimização e desejo pelo proibido

Relacionamentos com pessoas comprometidas podem ativar neurotransmissores ligados ao prazer e à excitação. A adrenalina do proibido e o papel de vítima — que libera endorfinas — acabam se tornando fontes de recompensa emocional.

Segundo Lacan, desejamos o desejo do outro, e quanto mais “proibido” alguém parece, mais desejável se torna. Por isso, o envolvimento com quem já tem um parceiro pode carregar uma forte carga simbólica.

Romper o ciclo é possível

Para os especialistas, o primeiro passo é não julgar moralmente. A psicanálise pode ajudar a identificar os padrões, nomear o prazer oculto na repetição e permitir que a pessoa escolha outro lugar afetivo.

Tomar consciência é o início da transformação.

Fonte: O Globo

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