Depois de mais de um século dependendo de injeções de insulina, pacientes com diabetes tipo 1 podem estar à beira de uma revolução no tratamento da doença. Um estudo realizado nos Estados Unidos aponta que uma nova terapia celular, baseada em células-tronco, é capaz de restaurar a produção natural de insulina no organismo — e tudo isso com uma única infusão.
Um “transplante microscópico” que muda tudo
Desenvolvido por pesquisadores da Universidade da Pensilvânia em parceria com a farmacêutica Vertex, o tratamento inovador utiliza células pancreáticas criadas em laboratório a partir de células-tronco. A técnica foi batizada de zimislecel e funciona como um minitransplante de ilhotas pancreáticas — as estruturas responsáveis por produzir insulina.
Essas células artificiais, uma vez no corpo, são indistinguíveis das naturais: detectam os níveis de glicose, liberam insulina e regulam outros hormônios do metabolismo. Ou seja, restauram a função do pâncreas de forma autônoma e natural, eliminando a necessidade de injeções externas.
No estudo clínico de fase 2, publicado no New England Journal of Medicine, 10 dos 12 pacientes tratados com a infusão celular deixaram de precisar de insulina suplementar um ano após o procedimento.
Um século de dependência pode estar perto do fim

O diabetes tipo 1 é uma doença autoimune que destrói as células beta do pâncreas, impedindo a produção de insulina. Sem esse hormônio, a glicose se acumula no sangue, gerando sérios riscos à saúde. Desde 1922, pacientes convivem com a rotina de injeções, monitores de glicose e bombas de insulina — ferramentas que melhoram o controle, mas não curam a doença.
Mesmo com esses avanços, o tratamento atual ainda é impreciso: a insulina injetada não se ajusta em tempo real às necessidades do corpo, o que pode provocar picos de açúcar (hiperglicemia) ou quedas perigosas (hipoglicemia). Ambos os extremos são prejudiciais, podendo causar desde lesões nervosas e renais até desmaios e morte.
As ilhotas cultivadas e a promessa de autonomia
A novidade da Vertex consiste em cultivar em laboratório ilhotas pancreáticas a partir de células-tronco humanas. Essas estruturas são injetadas diretamente na corrente sanguínea e se instalam no fígado, onde começam a funcionar como se fossem parte do pâncreas.
De acordo com a endocrinologista Andressa Heimbecher, entrevistada pela CNN Brasil, o grande diferencial é o uso de células especializadas que “funcionam de maneira eficiente e regulam a produção de insulina conforme a necessidade do corpo”.
No atual ensaio clínico, 14 pacientes receberam centenas de milhões dessas células em infusões intravenosas. Os efeitos começaram rapidamente: as células detectaram os níveis de glicose e passaram a produzir insulina de forma natural.
Desafios ainda à frente: imunossupressão e segurança
Apesar dos resultados promissores, o tratamento ainda não está pronto para ser aplicado em larga escala. Isso porque os pacientes precisam tomar medicamentos imunossupressores para evitar que o corpo rejeite as novas células — o que traz riscos significativos.
Durante o estudo, dois participantes morreram (por causas não relacionadas à terapia), e outros apresentaram efeitos colaterais como diarreia, náuseas, dor de cabeça e infecções por COVID-19, todos associados ao uso dos imunossupressores.
Segundo Heimbecher, o desafio é ajustar o protocolo de forma que as células funcionem bem com o mínimo de efeitos adversos. É o que ela chama de “receita de bolo” para garantir segurança e eficácia do tratamento.
Os próximos passos para uma revolução no tratamento
A Vertex ampliou o estudo clínico e pretende incluir até 50 participantes. Quase todos já receberam a dose terapêutica, e os pesquisadores estão coletando os dados finais para solicitar a aprovação regulatória do tratamento — algo previsto para 2026.
Ainda que o caminho até a liberação global da terapia seja longo, a expectativa é de que, em cerca de 10 anos, o tratamento possa estar disponível em larga escala, oferecendo uma vida livre de injeções diárias a milhões de diabéticos tipo 1 ao redor do mundo.
[ Fonte: CNN Brasil ]