A Nova Zelândia entrou para a história ao se tornar o segundo país do mundo a permitir o uso medicinal da psilocibina — substância psicodélica extraída de cogumelos — no tratamento da depressão resistente. A medida é considerada inovadora por especialistas em saúde mental, mas ainda levanta questionamentos dentro da comunidade científica quanto à segurança e aos critérios de prescrição.
Um avanço científico com foco nos casos mais graves
A autorização foi concedida pela agência reguladora Medsafe a um único psiquiatra do país, que poderá prescrever, fornecer e administrar a psilocibina em contextos clínicos específicos. O foco é o tratamento de pacientes com depressão resistente — ou seja, que não respondem a abordagens terapêuticas convencionais.
O primeiro-ministro David Seymour comemorou a decisão nas redes sociais, afirmando que se trata de “um avanço inteligente, baseado na ciência”. Segundo ele, a psilocibina assistida por psicoterapia pode oferecer esperança para quem enfrenta os desafios mais complexos da saúde mental.
A substância, conhecida quimicamente como 4-fosforiloxi-N,N-dimetiltriptamina, é encontrada em cogumelos psicodélicos e tem a capacidade de alterar a percepção da realidade. Há décadas, pesquisadores investigam seus potenciais efeitos terapêuticos.
Resultados promissores, mas ainda controversos

Estudos internacionais vêm apontando benefícios no uso clínico da psilocibina. Pesquisadores da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, revelaram em 2020 que, quando aliada à psicoterapia, a substância pode reduzir de forma rápida e significativa os sintomas depressivos.
Dois anos antes, cientistas do Imperial College London já haviam notado efeitos positivos no bem-estar psicológico e na redução de pensamentos autoritários após apenas uma semana de tratamento. No entanto, especialistas alertam que os estudos ainda têm amostras pequenas e resultados heterogêneos.
O professor Cecilio Álamo, da Sociedade Espanhola de Farmacologia, ressalta que a experiência subjetiva provocada pela substância dificulta a avaliação de possíveis efeitos colaterais raros, mas relevantes em longo prazo.
Um psiquiatra, protocolos rígidos e segurança reforçada
Por ora, apenas um psiquiatra na Nova Zelândia tem permissão para utilizar a substância, e ele já possui experiência com pacientes em estudos clínicos anteriores. Segundo o Ministério da Saúde, o profissional deverá seguir protocolos rigorosos, com avaliações detalhadas do histórico clínico dos pacientes — incluindo possíveis casos de abuso de substâncias.
A Medsafe estuda ampliar a autorização para outros profissionais, desde que comprovem competência e passem por um processo formal de aprovação. Para isso, o governo está desenvolvendo uma diretriz específica para o uso controlado da psilocibina.
“Todas as solicitações serão avaliadas com base na segurança do paciente e na qualificação do profissional”, informou o órgão.
Segunda nação a liberar, mas ainda com cautela
A Nova Zelândia segue os passos da Austrália, que em julho de 2023 autorizou o uso da psilocibina e do MDMA como tratamentos para transtorno de estresse pós-traumático e depressão severa. Agora, ambos os países lideram uma mudança de paradigma no enfrentamento de doenças mentais.
Ainda assim, a liberação é cercada de precauções. A natureza psicodélica da substância exige supervisão intensiva, ambientes controlados e acompanhamento profissional constante. Os próximos passos serão fundamentais para avaliar os riscos, benefícios e impactos de uma terapia que, embora promissora, ainda é nova e sensível.
[ Fonte: Infobae ]