A inteligência artificial consegue escrever textos, organizar informações e distribuir notícias para milhões de pessoas em poucos segundos. Entretanto, existe uma pergunta que nenhuma dessas tecnologias consegue responder facilmente: o que acontece com quem dependia do jornal de papel para sobreviver? O encerramento da edição impressa de um tradicional periódico equatoriano expôs uma consequência da digitalização que ultrapassa as redações e atinge diretamente trabalhadores, leitores e comunidades inteiras.
O fim de um jornal impresso revela um problema maior
Em 11 de outubro de 2026, o jornal equatoriano EXPRESO publicou uma reflexão sobre as consequências do encerramento de sua edição impressa, depois de 53 anos de circulação em papel.
A jornalista Giannella Espinoza, editora de conteúdos digitais do veículo, chamou atenção para uma categoria frequentemente esquecida nas discussões sobre tecnologia: os vendedores de jornais.
No Equador, esses profissionais são conhecidos como canillitas, expressão tradicional também utilizada em outros países da América Latina.
Eles representam a última etapa de uma cadeia que começa na produção jornalística e termina nas mãos do leitor.
Durante décadas, foram responsáveis por levar notícias às ruas, bancas, praças e bairros.
Entretanto, quando um jornal deixa de circular em papel, a transformação não afeta apenas gráficas, distribuidores e profissionais das redações.
Ela também elimina uma fonte de renda para trabalhadores que dependem da venda de exemplares.
A situação mostra que a modernização tecnológica pode aumentar a eficiência de uma atividade sem necessariamente beneficiar todos os envolvidos.
A digitalização não substitui automaticamente os empregos perdidos

A migração dos jornais para plataformas digitais costuma ser apresentada como uma evolução inevitável.
Sites, aplicativos e redes sociais permitem publicar notícias instantaneamente, alcançar novos públicos e reduzir custos associados à impressão e à distribuição.
A inteligência artificial amplia essas possibilidades ao facilitar tarefas como transcrição, tradução, análise de documentos e organização de informações.
Entretanto, essas ferramentas não substituem automaticamente a renda de quem trabalhava na distribuição física.
Um vendedor pode aprender a utilizar um aplicativo de notícias, mas isso não significa que receberá dinheiro cada vez que alguém acessar uma reportagem.
Essa diferença revela um dos principais desafios da transformação digital: a tecnologia pode preservar o serviço oferecido ao consumidor enquanto modifica ou elimina determinadas ocupações.
No caso do EXPRESO, o problema é especialmente significativo porque a publicação já mantinha presença digital havia mais de 15 anos.
Portanto, o encerramento da edição impressa não pode ser explicado simplesmente como uma decisão de começar a operar na internet.
O jornal também denunciou pressões específicas relacionadas à sua situação empresarial e institucional, mostrando que cada processo de transição possui circunstâncias próprias.
Vendedores de jornais enfrentam dificuldades que vão além da tecnologia

No Equador, os profissionais responsáveis pela venda de jornais já enfrentavam outros obstáculos antes do encerramento da edição impressa do EXPRESO.
Um deles é a violência.
Em determinadas regiões, vendedores relatam ameaças e extorsões praticadas por criminosos que exigem pagamentos para permitir atividades comerciais.
A redução dos jornais disponíveis acrescenta outra dificuldade a essa realidade.
Marina Guadalupe Manosalvas, que trabalha há mais de 35 anos vendendo periódicos em Quito, relatou a tristeza dos clientes diante do desaparecimento da versão impressa.
Aníbal Vega, outro vendedor da capital equatoriana, destacou que muitos compradores são idosos e encontram dificuldades para acessar notícias por meios digitais.
A reportagem sobre a última edição impressa do EXPRESO registrou essas preocupações durante a despedida do papel, em 9 de outubro.
Para esses trabalhadores, perder um título significa reduzir as possibilidades de faturamento diário. Para os leitores, pode representar o desaparecimento de um hábito cultivado durante décadas.
A exclusão digital também ameaça o acesso à informação
O problema não se limita aos vendedores.
A substituição completa do papel por plataformas digitais pode dificultar o acesso às notícias para pessoas que não possuem dispositivos adequados, conexão estável ou familiaridade com aplicativos.
Esse desafio é especialmente importante entre determinados grupos de idosos, embora a idade, isoladamente, não determine a capacidade de utilizar tecnologia.
Um relatório da UNESCO sobre inclusão digital de pessoas idosas mostra que programas de aprendizagem, equipamentos acessíveis e apoio adequado podem reduzir essas barreiras.
A questão, portanto, não é defender que os jornais continuem necessariamente impressos para sempre.
O desafio é garantir que a modernização não transforme o acesso à informação em um privilégio restrito a quem domina determinadas ferramentas.
No Brasil, essa discussão também envolve bancas de jornais, pequenos comerciantes, distribuidores e leitores que ainda preferem formatos físicos.
A transição digital pode criar oportunidades, mas exige atenção às pessoas que dependem economicamente de atividades tradicionais.
A inteligência artificial pode ajudar, mas não resolve tudo

Ferramentas de inteligência artificial podem contribuir para a modernização dos negócios, a capacitação profissional e a criação de novos serviços.
Entretanto, oferecer cursos de tecnologia não é suficiente quando o principal problema é a perda imediata de renda.
Para trabalhadores afetados por mudanças estruturais, podem ser necessárias alternativas como programas de requalificação, apoio à diversificação comercial e políticas de transição profissional.
Também é importante reconhecer o valor social de determinadas ocupações.
O vendedor de jornais não entregava apenas informações. Em muitos bairros, fazia parte da rotina dos moradores, conhecia clientes habituais e funcionava como um ponto de encontro entre pessoas.
A internet pode distribuir uma notícia instantaneamente, mas não reproduz automaticamente essas relações.
O encerramento da edição impressa do EXPRESO mostra que o progresso tecnológico não deve ser avaliado apenas pela velocidade das ferramentas ou pela redução de custos.
Também importa compreender quem ganha novas oportunidades e quem perde seu espaço nesse processo.
A transformação digital continuará avançando. A pergunta é se governos, empresas e comunidades conseguirão criar caminhos para que os trabalhadores não sejam simplesmente deixados para trás.