Pular para o conteúdo
Tecnologia

O avanço da inteligência artificial está deixando uma profissão para trás, e ninguém sabe como substituí-la

O fim de um jornal impresso no Equador revela um problema pouco discutido da transformação digital: o que acontece com os trabalhadores que desaparecem dessa cadeia?
Por

Tempo de leitura: 4 minutos

A inteligência artificial consegue escrever textos, organizar informações e distribuir notícias para milhões de pessoas em poucos segundos. Entretanto, existe uma pergunta que nenhuma dessas tecnologias consegue responder facilmente: o que acontece com quem dependia do jornal de papel para sobreviver? O encerramento da edição impressa de um tradicional periódico equatoriano expôs uma consequência da digitalização que ultrapassa as redações e atinge diretamente trabalhadores, leitores e comunidades inteiras.

O fim de um jornal impresso revela um problema maior

Em 11 de outubro de 2026, o jornal equatoriano EXPRESO publicou uma reflexão sobre as consequências do encerramento de sua edição impressa, depois de 53 anos de circulação em papel.

A jornalista Giannella Espinoza, editora de conteúdos digitais do veículo, chamou atenção para uma categoria frequentemente esquecida nas discussões sobre tecnologia: os vendedores de jornais.

No Equador, esses profissionais são conhecidos como canillitas, expressão tradicional também utilizada em outros países da América Latina.

Eles representam a última etapa de uma cadeia que começa na produção jornalística e termina nas mãos do leitor.

Durante décadas, foram responsáveis por levar notícias às ruas, bancas, praças e bairros.

Entretanto, quando um jornal deixa de circular em papel, a transformação não afeta apenas gráficas, distribuidores e profissionais das redações.

Ela também elimina uma fonte de renda para trabalhadores que dependem da venda de exemplares.

A situação mostra que a modernização tecnológica pode aumentar a eficiência de uma atividade sem necessariamente beneficiar todos os envolvidos.

A digitalização não substitui automaticamente os empregos perdidos

O avanço da inteligência artificial está deixando uma profissão para trás, e ninguém sabe como substituí-la
© Obi – Unsplash

A migração dos jornais para plataformas digitais costuma ser apresentada como uma evolução inevitável.

Sites, aplicativos e redes sociais permitem publicar notícias instantaneamente, alcançar novos públicos e reduzir custos associados à impressão e à distribuição.

A inteligência artificial amplia essas possibilidades ao facilitar tarefas como transcrição, tradução, análise de documentos e organização de informações.

Entretanto, essas ferramentas não substituem automaticamente a renda de quem trabalhava na distribuição física.

Um vendedor pode aprender a utilizar um aplicativo de notícias, mas isso não significa que receberá dinheiro cada vez que alguém acessar uma reportagem.

Essa diferença revela um dos principais desafios da transformação digital: a tecnologia pode preservar o serviço oferecido ao consumidor enquanto modifica ou elimina determinadas ocupações.

No caso do EXPRESO, o problema é especialmente significativo porque a publicação já mantinha presença digital havia mais de 15 anos.

Portanto, o encerramento da edição impressa não pode ser explicado simplesmente como uma decisão de começar a operar na internet.

O jornal também denunciou pressões específicas relacionadas à sua situação empresarial e institucional, mostrando que cada processo de transição possui circunstâncias próprias.

Vendedores de jornais enfrentam dificuldades que vão além da tecnologia

O avanço da inteligência artificial está deixando uma profissão para trás, e ninguém sabe como substituí-la
© Joshuan Barboza – Pexels

No Equador, os profissionais responsáveis pela venda de jornais já enfrentavam outros obstáculos antes do encerramento da edição impressa do EXPRESO.

Um deles é a violência.

Em determinadas regiões, vendedores relatam ameaças e extorsões praticadas por criminosos que exigem pagamentos para permitir atividades comerciais.

A redução dos jornais disponíveis acrescenta outra dificuldade a essa realidade.

Marina Guadalupe Manosalvas, que trabalha há mais de 35 anos vendendo periódicos em Quito, relatou a tristeza dos clientes diante do desaparecimento da versão impressa.

Aníbal Vega, outro vendedor da capital equatoriana, destacou que muitos compradores são idosos e encontram dificuldades para acessar notícias por meios digitais.

A reportagem sobre a última edição impressa do EXPRESO registrou essas preocupações durante a despedida do papel, em 9 de outubro.

Para esses trabalhadores, perder um título significa reduzir as possibilidades de faturamento diário. Para os leitores, pode representar o desaparecimento de um hábito cultivado durante décadas.

A exclusão digital também ameaça o acesso à informação

O problema não se limita aos vendedores.

A substituição completa do papel por plataformas digitais pode dificultar o acesso às notícias para pessoas que não possuem dispositivos adequados, conexão estável ou familiaridade com aplicativos.

Esse desafio é especialmente importante entre determinados grupos de idosos, embora a idade, isoladamente, não determine a capacidade de utilizar tecnologia.

Um relatório da UNESCO sobre inclusão digital de pessoas idosas mostra que programas de aprendizagem, equipamentos acessíveis e apoio adequado podem reduzir essas barreiras.

A questão, portanto, não é defender que os jornais continuem necessariamente impressos para sempre.

O desafio é garantir que a modernização não transforme o acesso à informação em um privilégio restrito a quem domina determinadas ferramentas.

No Brasil, essa discussão também envolve bancas de jornais, pequenos comerciantes, distribuidores e leitores que ainda preferem formatos físicos.

A transição digital pode criar oportunidades, mas exige atenção às pessoas que dependem economicamente de atividades tradicionais.

A inteligência artificial pode ajudar, mas não resolve tudo

O avanço da inteligência artificial está deixando uma profissão para trás, e ninguém sabe como substituí-la
© Unsplash

Ferramentas de inteligência artificial podem contribuir para a modernização dos negócios, a capacitação profissional e a criação de novos serviços.

Entretanto, oferecer cursos de tecnologia não é suficiente quando o principal problema é a perda imediata de renda.

Para trabalhadores afetados por mudanças estruturais, podem ser necessárias alternativas como programas de requalificação, apoio à diversificação comercial e políticas de transição profissional.

Também é importante reconhecer o valor social de determinadas ocupações.

O vendedor de jornais não entregava apenas informações. Em muitos bairros, fazia parte da rotina dos moradores, conhecia clientes habituais e funcionava como um ponto de encontro entre pessoas.

A internet pode distribuir uma notícia instantaneamente, mas não reproduz automaticamente essas relações.

O encerramento da edição impressa do EXPRESO mostra que o progresso tecnológico não deve ser avaliado apenas pela velocidade das ferramentas ou pela redução de custos.

Também importa compreender quem ganha novas oportunidades e quem perde seu espaço nesse processo.

A transformação digital continuará avançando. A pergunta é se governos, empresas e comunidades conseguirão criar caminhos para que os trabalhadores não sejam simplesmente deixados para trás.

Partilhe este artigo

Artigos relacionados