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Ciência

O calor extremo pode estar envelhecendo seu corpo em silêncio — e a ciência acaba de provar isso

Não é só o desconforto e a desidratação: o calor intenso pode estar acelerando seu envelhecimento biológico. Pesquisas revelam como o estresse térmico impacta nossas células e aumenta os riscos de doenças graves, mesmo antes do nascimento. Entenda por que o calor está nos afetando de forma invisível — e o que você pode fazer.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Ondas de calor se tornaram parte do cotidiano em muitas regiões do mundo, e seus efeitos vão muito além de mal-estar físico. Estudos recentes estão revelando uma ligação alarmante entre o calor extremo e o envelhecimento acelerado das nossas células. Mais do que desconforto, o aumento da temperatura global pode estar encurtando silenciosamente nossa expectativa de vida. A boa notícia? Ainda há como agir.

O que é envelhecimento biológico e por que ele importa

Diferente da idade cronológica, que conta quantos anos vivemos, a idade biológica mede o desgaste real do corpo — ou seja, o funcionamento das células e tecidos. Uma pessoa pode ter 60 anos, mas um organismo equivalente a 70. Essa diferença explica por que algumas pessoas aparentam estar mais saudáveis do que outras da mesma idade.

O problema é que um envelhecimento biológico acelerado está ligado ao aumento do risco de doenças como câncer, demência, diabetes e até morte precoce. E, segundo novas pesquisas, o calor extremo pode estar contribuindo diretamente para isso.

Como o calor impacta nossas células

Embora nosso DNA seja fixo desde o nascimento, fatores externos podem alterar a forma como ele se expressa — ativando ou desativando genes como se fossem interruptores. Esses processos são influenciados por comportamentos (como sedentarismo e tabagismo), mas também por fatores ambientais, como o calor.

Quando exposto a altas temperaturas, o corpo entra em estado de estresse para tentar manter sua temperatura interna. Esse esforço adicional pode danificar células e comprometer o funcionamento do organismo. Se esse estresse térmico se mantém por longos períodos, o desgaste se acumula e acelera o envelhecimento.

O que dizem os estudos mais recentes

Calor Temp
© Freepik

A pesquisadora Jennifer Ailshire, da Universidade do Sul da Califórnia, e sua colega Eunyoung Choi analisaram dados de mais de 3.600 pessoas com 56 anos ou mais nos Estados Unidos. Utilizando “relógios epigenéticos”, que medem a idade biológica por meio de modificações no DNA, elas compararam os dados com registros climáticos locais.

A conclusão foi impressionante: pessoas expostas a mais de 140 dias de calor extremo por ano (com índice de calor acima de 32,2 °C) apresentaram uma idade biológica até 14 meses superior à de quem vivia em regiões com menos de 10 dias de calor intenso. E isso mesmo levando em conta fatores como renda e nível de atividade física.

O impacto, segundo as pesquisadoras, é comparável ao de hábitos como fumar ou consumir álcool em excesso.

Mulheres, crianças e pessoas com doenças crônicas são mais afetadas

Um estudo feito em 2023 na Alemanha com mais de 2.000 pessoas reforça os achados. O calor teve maior impacto no envelhecimento de mulheres — que tendem a suar menos — e em pessoas com diabetes ou obesidade, que já têm maior vulnerabilidade celular.

Outro estudo, publicado em 2024, identificou efeitos ainda mais precoces: crianças no Quênia que estavam no útero durante períodos de seca e calor intenso apresentaram sinais de envelhecimento celular acelerado. A combinação de estresse térmico, desidratação e sofrimento emocional das gestantes afetou o desenvolvimento fetal e, potencialmente, a saúde ao longo da vida.

Há maneiras de se proteger?

Apesar dos riscos, os cientistas enfatizam que o dano causado pelo calor extremo não é necessariamente permanente. Com mudanças de hábitos e acesso a condições melhores, é possível retardar ou até reverter parte do envelhecimento celular.

Entre as estratégias recomendadas estão: evitar atividades físicas durante os horários mais quentes do dia, manter uma boa hidratação, melhorar a alimentação e utilizar climatização quando possível. Medicamentos como a metformina (usada contra diabetes) e o Ozempic (para controle de peso) também vêm sendo estudados por seus potenciais efeitos antienvelhecimento.

Um alerta para o futuro

Os cientistas ainda estão nos estágios iniciais da compreensão do impacto do calor sobre o envelhecimento humano. Mas à medida que eventos extremos se tornam mais frequentes com as mudanças climáticas, é urgente compreender quem corre mais riscos — e como podemos agir.

“Se não conseguimos frear o aumento das temperaturas, o mínimo que podemos fazer é aumentar a conscientização e buscar estratégias para nos proteger”, conclui Ailshire. E isso pode começar agora, com decisões simples que ajudam a preservar nosso corpo — e o tempo que temos.

 

[ Fonte: CNN Brasil ]

 

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