Eles passam horas dormindo, parecem perfeitamente capazes de ignorar qualquer pessoa quando querem e conquistaram uma reputação de independência que atravessa gerações. Mas basta observar alguns gatos quando seus tutores chegam em casa para perceber que existe algo mais acontecendo. Aproximar-se da porta, ronronar, se esfregar nas pernas ou procurar determinados objetos pode revelar uma relação muito mais sofisticada do que a velha imagem do felino solitário sugere.
O comportamento que acontece justamente quando você chega
Por muito tempo, cães foram considerados os grandes especialistas em criar vínculos com seres humanos, enquanto os gatos ocupavam o papel de companheiros mais distantes.
Essa diferença, porém, pode ter sido exagerada.
Estudos sobre comportamento felino mostram que gatos domésticos conseguem desenvolver relações sociais complexas com as pessoas com quem vivem. E algumas dessas relações ficam especialmente evidentes nos momentos de reencontro.
Um gato pode aparecer assim que escuta a porta, aproximar-se do tutor, ronronar ou esfregar a cabeça e o corpo nas pernas de quem acabou de chegar.
À primeira vista, parecem apenas comportamentos cotidianos. Mas o contato físico possui uma função social importante para os felinos.
O ato de se esfregar, por exemplo, também envolve troca de informações olfativas. Ao fazer isso, o animal pode reforçar sinais associados a indivíduos e ambientes que reconhece como familiares.
Isso ajuda a explicar por que a recepção de um gato pode ser tão particular.
Alguns vão diretamente até a pessoa. Outros esperam alguns minutos. Há ainda aqueles que preferem manter certa distância antes de decidir se querem interagir.
A personalidade do animal, suas experiências anteriores e a relação construída dentro de casa influenciam bastante essa resposta.
Mas existe outro detalhe interessante: o vínculo não necessariamente desaparece quando o tutor sai.
O cheiro de quem saiu pode continuar fazendo parte da rotina
O olfato é uma ferramenta fundamental para os gatos compreenderem o ambiente ao redor.
Por isso, não é incomum que determinados animais procurem lugares e objetos associados às pessoas com quem convivem. Uma cama, uma manta, uma camiseta usada ou até um pijama podem conservar odores familiares durante várias horas.
Isso não significa automaticamente que o gato esteja sofrendo de ansiedade ou “sentindo saudade” exatamente da mesma maneira que um ser humano.
A interpretação precisa ser mais cuidadosa.
O que o comportamento mostra é que o cheiro de uma pessoa conhecida pode ter valor social para o animal e continuar funcionando como uma referência familiar quando ela não está presente.
Quando o tutor retorna, essa familiaridade pode aparecer novamente de diferentes formas.
Alguns gatos esperam próximos à porta. Outros surgem pouco depois. Há animais que levam brinquedos para perto da pessoa ou simplesmente escolhem ficar no mesmo ambiente.
Nenhuma dessas atitudes possui exatamente o mesmo significado para todos os gatos.
Ainda assim, elas ajudam a desmontar a ideia de que os felinos domésticos são indiferentes às pessoas.
E pesquisas recentes estão tornando essa conclusão ainda mais interessante.
Independência não significa falta de vínculo
Experimentos comportamentais realizados nos últimos anos também questionaram a antiga ideia de que gatos seriam incapazes de formar vínculos de apego.
Alguns estudos encontraram comportamentos que, em determinados aspectos, lembram padrões observados nas relações entre bebês e cuidadores ou entre cães e seus tutores.
Isso não significa que gatos, cães e seres humanos estabeleçam relações idênticas.
Os gatos continuam sendo animais com características próprias. Muitos valorizam bastante seu espaço individual, passam longos períodos sozinhos e demonstram afeto de maneiras menos óbvias do que um cão que corre imediatamente para receber seu tutor.
Mas autonomia e sociabilidade não são opostos.
Um gato pode passar boa parte do dia dormindo sozinho e, ainda assim, procurar ativamente uma determinada pessoa quando deseja segurança, contato ou companhia.
Existe também uma discussão interessante sobre o papel da domesticação. A convivência prolongada entre gatos e seres humanos certamente influenciou o comportamento das duas espécies. Porém, afirmar que os gatos estão atualmente “evoluindo para ficar mais sociáveis” exige evidências genéticas e estudos de longo prazo que ainda não permitem uma conclusão tão simples.
Talvez parte da mudança esteja acontecendo do outro lado.
Durante muito tempo, nós simplesmente subestimamos o que os gatos eram capazes de demonstrar.
Quando um felino aparece na porta, ronrona, se esfrega nas pernas ou escolhe dormir sobre uma roupa que carrega o cheiro do tutor, não é possível afirmar automaticamente que ele está “comemorando” como uma pessoa faria.
Mas também já não parece adequado interpretar tudo como simples indiferença.
Por trás da famosa independência felina existe uma vida social mais rica, baseada em cheiro, familiaridade, memória, contato e relações individuais — e talvez tenhamos demorado bastante para perceber isso.