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Ciência

O coração foi colocado à prova no espaço e o resultado pode mudar o que sabemos sobre viagens a Marte

Cientistas analisaram o coração após uma longa permanência no espaço e encontraram um resultado inesperado, acompanhado de um pequeno sinal que ainda preocupa os pesquisadores.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Viajar até Marte significa passar meses longe da Terra, submetido à microgravidade, à radiação e a condições que o corpo humano não foi preparado para enfrentar. Entre todas as dúvidas sobre essas missões, uma delas é especialmente importante: o que acontece com o coração? Um experimento realizado com animais na Estação Espacial Internacional acaba de oferecer uma resposta surpreendente, mas também deixou uma pista que merece atenção.

Um experimento que levou o coração para fora da Terra

O coração foi colocado à prova no espaço e o resultado pode mudar o que sabemos sobre viagens a Marte
© Unsplash

Há anos, cientistas sabem que permanecer no espaço provoca mudanças importantes no organismo. Sem a gravidade terrestre impondo resistência constante, músculos podem perder massa e força, enquanto ossos, circulação sanguínea e outros sistemas passam por adaptações.

É justamente por isso que astronautas precisam dedicar parte considerável de seus dias a exercícios físicos. Correr em esteiras, pedalar e realizar atividades de resistência dentro da Estação Espacial Internacional não são apenas formas de manter a rotina. Esses exercícios ajudam a reduzir os efeitos da microgravidade.

Mas existe um músculo que não pode simplesmente parar para descansar: o coração.

Para descobrir como ele responde ao ambiente espacial, pesquisadores das universidades de Chicago e Nebraska analisaram tecidos cardíacos de cinco ratos que passaram 38 dias e meio na Estação Espacial Internacional.

As amostras foram comparadas com tecidos de animais que permaneceram na Terra. A atenção dos cientistas se concentrou nos sarcômeros, estruturas microscópicas presentes nas células musculares que funcionam como pequenos motores responsáveis pela contração.

A expectativa era encontrar algum tipo de enfraquecimento.

Foi aí que surgiu a surpresa.

O resultado que os cientistas não esperavam encontrar

O coração foi colocado à prova no espaço e o resultado pode mudar o que sabemos sobre viagens a Marte
© Unsplash

As análises indicaram que a capacidade de contração desses mecanismos celulares permaneceu praticamente no mesmo nível observado nos animais que nunca deixaram a Terra.

Em outras palavras, a permanência em microgravidade durante aquele período não parece ter reduzido a força básica das células do músculo cardíaco.

O estudo, publicado na revista científica npj Microgravity, também examinou as proteínas responsáveis pela formação dos sarcômeros. Novamente, os pesquisadores não encontraram diferenças relevantes que apontassem para perda de capacidade funcional.

Jonathan Kirk, professor associado da Universidade de Chicago e um dos principais autores da pesquisa, explicou que a equipe inicialmente esperava observar alguma redução da função cardíaca provocada pela viagem espacial.

O resultado ganhou ainda mais importância por causa da metodologia utilizada. O laboratório de Kirk desenvolve técnicas capazes de avaliar o funcionamento cardíaco usando tecidos congelados. Isso permite aproveitar amostras obtidas em missões anteriores e submetê-las a novos tipos de investigação.

A colaboração surgiu em 2023, quando Pooneh Bagher, professora associada da Universidade de Nebraska, sugeriu estudar tecidos cardíacos provenientes de ratos enviados ao espaço em um projeto anterior.

As amostras abriram uma oportunidade rara: observar como estruturas essenciais do coração respondem a um ambiente que não pode ser reproduzido perfeitamente nos laboratórios terrestres.

Pouco mais de um mês para um rato pode representar muito mais

Os 38 dias e meio passados pelos animais em órbita podem parecer um período curto diante de uma futura viagem até Marte. A fisiologia dos ratos, porém, muda essa perspectiva.

Esses animais possuem metabolismo muito mais acelerado que o humano. Seus corações podem alcançar cerca de 600 batimentos por minuto, enquanto uma frequência cardíaca humana em repouso costuma permanecer muito abaixo desse valor.

Levando essas diferenças em consideração, os pesquisadores estimam que o período analisado poderia representar aproximadamente entre sete meses e meio e dez meses para um coração humano.

Essa comparação torna os resultados especialmente interessantes para missões espaciais prolongadas.

Além disso, a análise biofísica utilizada consegue identificar alterações celulares antes mesmo que apareçam sintomas perceptíveis. Isso significa que os cientistas não estavam procurando apenas danos evidentes, mas também sinais iniciais de que algo começava a funcionar de maneira diferente.

E foi justamente nesse ponto que apareceu um detalhe importante.

Apesar da força de contração preservada, os tecidos apresentaram alguns indícios de inflamação nas células cardíacas. Ainda não está claro qual é a importância desse fenômeno nem se ele aumentaria durante permanências mais longas no espaço.

Marte continua sendo uma incógnita para o corpo humano

O próximo objetivo dos pesquisadores é analisar tecidos de animais submetidos a períodos ainda maiores em órbita. A intenção é descobrir se os sinais inflamatórios permanecem estáveis ou se aumentam conforme a exposição à microgravidade se prolonga.

Existe ainda outra dificuldade: separar aquilo que foi provocado pela permanência no espaço dos efeitos associados ao retorno à Terra.

As amostras utilizadas no estudo pertenciam a animais que completaram a viagem de volta. O reingresso, as mudanças bruscas de gravidade e o processo de readaptação podem produzir efeitos próprios sobre o organismo.

Por isso, os cientistas gostariam de estudar futuramente amostras coletadas ainda dentro da Estação Espacial Internacional. Dessa maneira, seria possível comparar o coração durante a permanência em microgravidade com seu estado depois do retorno ao planeta.

Para os planos de exploração espacial da NASA, essa distinção pode ser fundamental. Uma viagem a Marte envolve uma duração muito superior às missões tradicionais em órbita terrestre, e cada sistema do corpo precisa ser compreendido antes que humanos possam enfrentar esse percurso com segurança.

O novo trabalho não significa que o coração esteja protegido de todos os efeitos do espaço. Mas revela algo importante: mesmo depois de uma exposição significativa à microgravidade, os mecanismos fundamentais responsáveis pela contração cardíaca continuaram funcionando.

É uma notícia encorajadora para futuras viagens interplanetárias. Ao mesmo tempo, aquele discreto sinal de inflamação lembra que, quando o assunto é viver meses longe da Terra, o corpo humano ainda guarda perguntas que a ciência apenas começou a responder.

[Fonte: Infobae]

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