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Ciência

O deserto parecia inútil para a construção até uma dupla encontrar uma maneira de transformar sua areia em algo valioso

Uma técnica desenvolvida em Dubai transforma um recurso abundante, mas pouco aproveitado pela construção, em blocos que podem reduzir drasticamente o uso de cimento e materiais importados.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Pode parecer contraditório, mas alguns países cercados por desertos precisam importar areia para construir seus edifícios. O problema está escondido na própria geometria dos grãos, que torna o material das dunas inadequado para o concreto convencional. Nos Emirados Árabes Unidos, porém, dois profissionais decidiram enfrentar esse paradoxo. Depois de anos de testes, eles chegaram a uma solução que combina matéria-prima local, arquitetura e uma redução significativa no uso de cimento.

Por que um país coberto de areia precisa importar areia

O deserto parecia inútil para a construção até uma dupla encontrar uma maneira de transformar sua areia em algo valioso
© Pexels

A explicação está em uma característica praticamente invisível a olho nu.

Os grãos encontrados nas dunas do Golfo Pérsico foram desgastados durante milhares de anos pela ação do vento. Como resultado, são extremamente finos, lisos e arredondados.

Para a construção convencional, isso representa um problema.

O concreto funciona melhor com agregados de formato mais irregular e anguloso, como aqueles encontrados em depósitos fluviais. Suas superfícies facilitam o encaixe entre as partículas e ajudam a criar uma estrutura resistente.

A areia do deserto não oferece a mesma capacidade de ligação.

Foi esse paradoxo que chamou a atenção do argentino Máximo Tettamanzi e da emiratense Alyina Ahmed enquanto estudavam na Architectural Association, em Londres.

Eles perceberam que os Emirados Árabes Unidos possuíam quantidades praticamente ilimitadas de areia, mas continuavam dependendo da importação de determinados agregados para alimentar uma indústria da construção gigantesca.

A pergunta era inevitável: seria possível transformar aquele recurso local em um material realmente útil?

A resposta começou em um laboratório improvisado em uma garagem

O deserto parecia inútil para a construção até uma dupla encontrar uma maneira de transformar sua areia em algo valioso
© Pexels

Os primeiros experimentos foram financiados por pequenos subsídios que, juntos, somavam aproximadamente US$ 8 mil.

Vieram então inúmeros testes, misturas malsucedidas e ajustes.

Durante o período da pandemia, o projeto ganhou um cenário bastante diferente dos grandes laboratórios de materiais.

Ahmed montou uma estrutura experimental na garagem da família, em Dubai.

Foi ali que os pesquisadores continuaram trabalhando até conseguir estabilizar uma composição capaz de incorporar a problemática areia das dunas.

Posteriormente, testes realizados por laboratórios independentes indicaram resistência suficiente para determinadas aplicações arquitetônicas.

O avanço deu origem à ARDH Collective, empresa criada para transformar a pesquisa em produtos comerciais.

Um dos aspectos mais relevantes da solução é a possibilidade de reduzir em até 50% a quantidade de cimento utilizada em determinados blocos.

A redução é especialmente interessante porque a fabricação de cimento está entre as atividades industriais com maior contribuição para as emissões globais de dióxido de carbono.

Os primeiros blocos não querem substituir paredes convencionais

Em vez de tentar imediatamente competir com materiais estruturais tradicionais, a empresa concentrou seus primeiros produtos em fachadas e revestimentos.

Os blocos podem ser moldados em padrões geométricos que funcionam como elementos vazados, permitindo a passagem de ar e de parte da luz.

Essa característica possui uma vantagem importante no clima do Oriente Médio.

As estruturas ajudam a reduzir a incidência direta da intensa radiação solar sobre os edifícios e, ao mesmo tempo, favorecem a ventilação passiva.

Também oferecem uma combinação curiosa de visibilidade e privacidade.

Dependendo do desenho utilizado, quem está no interior consegue observar o lado externo, enquanto a visão no sentido contrário fica consideravelmente limitada.

O material ainda preserva tonalidades semelhantes às do próprio deserto, permitindo que as construções estabeleçam uma relação visual mais natural com a paisagem.

Outro benefício está na logística.

Quanto maior a utilização de recursos disponíveis localmente, menor pode ser a necessidade de transportar grandes quantidades de materiais pesados por longas distâncias.

Até caroços de tâmaras entraram na experiência

A areia não é o único recurso regional que chamou a atenção dos pesquisadores.

A ARDH Collective também começou a experimentar resíduos da produção de tâmaras, alimento extremamente comum na região.

Os caroços descartados passam por processos de tratamento, são triturados até se transformarem em um pó e posteriormente combinados com resinas e outros componentes.

O resultado pode ser utilizado na produção de painéis decorativos e peças de mobiliário.

Embora sejam materiais bastante diferentes, os dois projetos seguem a mesma lógica: procurar matérias-primas abundantes ou descartadas localmente e transformá-las em produtos com valor para a arquitetura.

Essa abordagem pode ganhar importância à medida que a construção civil procura reduzir tanto sua pegada de carbono quanto a dependência de cadeias internacionais de fornecimento.

Uma ideia acadêmica agora tenta conquistar a construção em grande escala

O projeto ganhou visibilidade depois de participar da Dubai Design Week, em 2023, e posteriormente chegou ao programa Shark Tank Dubai.

Agora, o desafio é muito maior do que fabricar peças decorativas.

A empresa pretende ampliar sua capacidade produtiva, estabelecer parcerias com companhias de engenharia e avaliar novas aplicações para seus materiais.

Entre os próximos objetivos está o desenvolvimento de soluções para pavimentação urbana e a validação de misturas capazes de atender a exigências mais rigorosas da construção.

A promessa econômica também chama atenção.

Estimativas apresentadas em torno do projeto sugerem que uma adoção significativa desses materiais em fachadas poderia diminuir consideravelmente os gastos dos Emirados Árabes Unidos com a importação de areia e outros insumos.

Mas talvez o aspecto mais curioso da tecnologia esteja justamente na origem.

Durante décadas, as dunas gigantescas ao redor das cidades do Golfo representaram uma abundância enganosa: havia areia por toda parte, mas não aquela de que a construção precisava.

Agora, uma inovação nascida de experimentos relativamente modestos tenta transformar justamente esse material rejeitado em uma nova matéria-prima para as cidades do futuro.

[Fonte: OK Diario]

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