Por alguns minutos, o dia pode assumir a aparência da noite, a temperatura cai e uma estrutura normalmente invisível ao redor do Sol aparece no céu. O eclipse solar total de 12 de agosto promete ser um dos grandes acontecimentos astronômicos, mas o espetáculo vai muito além da escuridão. Há detalhes surpreendentes por trás do fenômeno, incluindo uma máquina criada há mais de 2 mil anos e um futuro em que eclipses totais simplesmente deixarão de existir.
Há 2 mil anos, uma máquina já conseguia prever eclipses

Prever eclipses pode parecer uma conquista da astronomia moderna, mas os antigos gregos desenvolveram um equipamento surpreendentemente sofisticado para acompanhar os movimentos do céu.
Conhecido como mecanismo de Antikythera, o artefato foi construído aproximadamente em meados do século II a.C. e é considerado a mais antiga calculadora astronômica portátil preservada.
Feito principalmente de bronze, o equipamento conseguia auxiliar na previsão de eclipses, manter calendários e até calcular as datas de importantes competições esportivas gregas, incluindo os Jogos Olímpicos.
Sua existência permaneceu esquecida durante séculos. Em 1900, mergulhadores encontraram seus fragmentos entre os destroços de um antigo naufrágio no mar Egeu. Atualmente, restam 82 fragmentos do mecanismo.
A máquina original ficava dentro de uma caixa de madeira de aproximadamente 33 centímetros de altura por 18 centímetros de largura. Uma manivela movimentava cerca de 30 engrenagens distribuídas por dez eixos, permitindo acompanhar as posições aparentes do Sol e da Lua.
A complexidade era tão grande que seu funcionamento completo só começou a ser compreendido muitos séculos depois de sua construção.
Hoje preservado no Museu Arqueológico Nacional de Atenas, o mecanismo também inspirou elementos fictícios de Indiana Jones e o Chamado do Destino, lançado em 2023.
Em um eclipse, 99,9% e 100% são mundos completamente diferentes
Quando a Lua cobre quase todo o Sol, pode parecer que a diferença entre 99,9% e 100% seja insignificante. Astronomicamente, porém, esse pequeno intervalo muda tudo.
Somente durante a totalidade o disco solar fica completamente escondido pela Lua. Nesse breve momento, surge ao redor dele a coroa solar, região mais externa da atmosfera do Sol que normalmente fica invisível devido ao intenso brilho da superfície solar.
Mesmo que apenas 0,1% do disco continue descoberto, a luz restante ainda é milhares de vezes mais brilhante do que a coroa, impedindo que ela seja observada nas mesmas condições.
A totalidade também transforma rapidamente o ambiente. A luminosidade despenca, o céu ganha aparência semelhante à de um entardecer extremamente avançado e a temperatura pode diminuir perceptivelmente. Alterações no vento também podem acontecer.
Pouco antes da cobertura completa aparecem alguns dos efeitos mais impressionantes.
Um deles é o chamado anel de diamante, produzido pelos últimos raios solares antes da totalidade. Outro são as contas de Baily, pequenos pontos luminosos que surgem na borda lunar quando a luz consegue atravessar vales existentes entre as montanhas da Lua.
E o eclipse não será o único espetáculo reservado para o dia 12.
Depois do eclipse, o céu prepara uma segunda atração
Quando a escuridão natural da noite chegar ao Hemisfério Norte, os observadores poderão voltar os olhos para outro fenômeno astronômico muito aguardado: as Perseidas.
Essa chuva de meteoros acontece todos os anos quando a Terra atravessa uma região do espaço repleta de partículas deixadas pelo cometa Swift-Tuttle. Ao entrarem em alta velocidade na atmosfera terrestre, esses pequenos fragmentos produzem os rastros luminosos popularmente chamados de estrelas cadentes.
O pico de atividade coincide com a noite de 12 de agosto.
As condições prometem ser particularmente favoráveis porque o céu estará suficientemente escuro para facilitar a visualização. A própria NASA descreve o evento deste ano como uma das melhores oportunidades para observar uma chuva de meteoros no Hemisfério Norte.
Assim, algumas regiões poderão vivenciar uma sequência incomum: primeiro, acompanhar a transformação provocada pelo eclipse e, horas depois, observar meteoros atravessando o céu.
Mas existe outra curiosidade ainda maior sobre os eclipses totais. Apesar de parecerem parte permanente do funcionamento do Sistema Solar, eles têm prazo para acabar.
A Lua está lentamente acabando com os eclipses solares totais
A possibilidade de observar um eclipse total depende de uma extraordinária coincidência geométrica.
O Sol é imensamente maior do que a Lua, mas também está muito mais distante da Terra. Como resultado, os dois objetos apresentam tamanhos aparentes semelhantes quando vistos do nosso planeta.
É justamente essa coincidência que permite que a Lua cubra completamente o disco solar.
O problema é que essa relação está mudando.
A Lua se afasta da Terra, em média, cerca de 3,8 centímetros por ano. Em uma escala humana, o movimento é praticamente imperceptível. Quando pensamos em centenas de milhões de anos, porém, as consequências se tornam enormes.
Quanto mais distante estiver, menor a Lua parecerá no céu. Segundo as estimativas astronômicas, daqui a aproximadamente 600 milhões de anos, seu tamanho aparente já não será suficiente para esconder completamente o Sol.
Nem mesmo uma combinação particularmente favorável, com a Lua no ponto mais próximo da Terra e nosso planeta mais distante do Sol, conseguirá produzir a totalidade.
Restarão os eclipses anulares, nos quais uma borda brilhante do Sol permanece visível ao redor da Lua.
Isso significa que vivemos em uma janela privilegiada da história do Sistema Solar. No passado distante, os eclipses podiam durar mais. Em um futuro extremamente distante, desaparecerão.
O eclipse de 12 de agosto, portanto, não é apenas mais um alinhamento entre três corpos celestes. Cada eclipse total é também uma manifestação temporária de uma coincidência cósmica que, por mais permanente que pareça aos nossos olhos, um dia deixará de existir.
[Fonte: G1]