O Vale do Silício sempre foi uma vitrine de tendências que moldam o futuro. Agora, mais do que ditar inovações tecnológicas, seus líderes estão reescrevendo as regras do trabalho. Após flertar com a flexibilidade durante a pandemia, gigantes como Google, Tesla e Meta voltam a exigir presença, performance e muitas — muitas — horas a mais. A cultura do excesso, travestida de paixão e propósito, está de volta.
De volta ao escritório — e por muito mais tempo

Durante a pandemia, as big techs lideraram a adoção do home office e pareciam abraçar o equilíbrio entre vida pessoal e profissional. No entanto, com a retomada da “normalidade”, o cenário mudou. Empresas como Apple, Meta e Amazon passaram da persuasão à imposição: o retorno ao escritório se tornou obrigatório — ainda que parcialmente — mesmo entre os funcionários mais resistentes.
Esse movimento não ficou restrito ao setor tecnológico. Conglomerados financeiros como Citigroup também recuaram de suas propostas de bem-estar, encerrando iniciativas voltadas ao equilíbrio, como a filial em Málaga voltada para jovens banqueiros.
O novo ideal: 60, 80 ou até 120 horas por semana
Se antes a palavra de ordem era conciliar, agora a mensagem é outra: só os que se dedicam ao extremo prosperam. Elon Musk, símbolo máximo dessa visão, defende jornadas semanais de até 100 horas — ou até 120 no caso de seu grupo interno de elite, o chamado DOGE. Segundo ele, esse esforço seria a chave para superar a “burocracia” dos concorrentes, que trabalham apenas 40 horas.
Eric Schmidt, ex-CEO do Google, também entrou no debate ao criticar o foco em qualidade de vida como algo que teria prejudicado a empresa na corrida contra a OpenAI. Apesar das críticas que recebeu, suas ideias foram endossadas por Sergey Brin, cofundador do Google, que defendeu 60 horas semanais como “ponto ideal” de produtividade — além de presença diária no escritório.
DOGE is working 120 hour a week. Our bureaucratic opponents optimistically work 40 hours a week. That is why they are losing so fast. https://t.co/dXtrL5rj1K
— Elon Musk (@elonmusk) February 2, 2025
Workaholismo como status
Esse discurso resgata uma velha bandeira do Vale do Silício: o culto ao trabalho como sinal de valor pessoal. Durante anos, a indústria competiu por talentos oferecendo conforto e flexibilidade, mas os ventos mudaram. A eficiência passou a ser a nova prioridade — o que resultou em demissões em massa e maior pressão por resultados.
Com o mercado mais rígido, engenheiros e técnicos relatam entrevistas mais duras e um ambiente de cobrança crescente. Setores como IA e realidade mista ainda têm espaço, mas o “vale-tudo” por profissionais qualificados já não existe mais.
Como o excesso virou norma

Empresas como Amazon e Meta estão refinando seus sistemas de avaliação, muitas vezes com metas fixas de corte que colocam bons funcionários sob observação. Já o Google, em vez de pressionar diretamente, está ajustando os bônus para premiar quem atinge um “impacto extraordinário” — algo que, na prática, exige mais horas no escritório.
“Essa ideia de que você faz parte da empresa, que deve ir além do básico, sempre existiu”, comenta um engenheiro da Meta. “Antes isso vinha disfarçado de desenvolvimento pessoal. Agora é sobre produtividade pura e dura.”
A contradição da era da IA
É irônico que esse discurso ganhe força justamente quando a indústria promove a inteligência artificial como solução para aliviar a carga de trabalho humano. A promessa é de que agentes de IA cuidem das tarefas repetitivas, liberando tempo para criatividade. Mas, na prática, os líderes do setor parecem apontar para uma jornada cada vez mais longa, não mais leve.
Enquanto o mundo sonha com mais liberdade no trabalho, os titãs do Vale do Silício resgatam o velho ideal da dedicação absoluta. Para eles, só se muda o mundo com muitas — e longas — horas de cadeira. A questão é: estaremos todos dispostos a pagar esse preço?
Fonte: El Confidencial