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Ciência

A luta contra os microplásticos ganhou um aliado improvável que já existe nas estações de tratamento

Uma técnica baseada em algo presente em qualquer lugar alcançou resultados impressionantes em laboratório e pode representar um novo passo no combate à poluição por microplásticos.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Os microplásticos já foram encontrados em rios, oceanos, alimentos, no solo e até no corpo humano. Diante de um problema que parece cada vez mais difícil de controlar, pesquisadores buscam soluções capazes de impedir que essas partículas continuem se espalhando pelo meio ambiente. Agora, um novo estudo mostra que uma tecnologia aparentemente simples pode oferecer resultados muito mais promissores do que se imaginava.

Um sistema já conhecido ganhou uma melhoria que aumentou sua eficiência

À primeira vista, a proposta parece simples demais para enfrentar um dos maiores desafios ambientais da atualidade: utilizar bolhas de ar para remover partículas microscópicas da água.

Foi exatamente essa ideia que pesquisadores da RMIT University, na Austrália, decidiram aperfeiçoar. Em vez de desenvolver uma tecnologia totalmente nova, a equipe optou por melhorar um processo já utilizado em estações de tratamento de água, conhecido como flotação por ar dissolvido.

Nesse sistema, pequenas bolhas aderem às partículas contaminantes, fazendo com que elas subam até a superfície, onde podem ser removidas com maior facilidade.

A inovação está na combinação de dois tipos diferentes de bolhas.

As microbolhas fornecem a força necessária para elevar os resíduos até a superfície. Já as nanobolhas, muito menores, aumentam o contato entre o ar e os microplásticos, facilitando sua agregação e tornando a separação muito mais eficiente.

Essa estratégia permitiu que o sistema apresentasse um desempenho superior aos métodos que utilizam apenas um único tamanho de bolha.

Durante os testes em laboratório, os pesquisadores analisaram partículas de polietileno e poliestireno presentes em águas residuais sintéticas.

Os resultados chamaram atenção. Utilizando apenas microbolhas, a remoção alcançou até 91% das partículas. Quando foram utilizadas somente nanobolhas, a eficiência chegou a 95%.

Na configuração combinada, porém, os índices ficaram ainda melhores, atingindo até 97% de remoção em determinados tipos de microplásticos.

O aspecto mais interessante é que essa melhoria poderia ser incorporada às estações de tratamento já existentes, exigindo principalmente ajustes operacionais, como pressão do ar, tempo de saturação e tamanho das bolhas, sem a necessidade de reconstruir toda a infraestrutura.

O maior desafio não é remover plástico, mas capturar partículas quase invisíveis

Os microplásticos medem menos de cinco milímetros e podem surgir de diversas fontes.

Eles são liberados pelo desgaste de pneus, pela lavagem de tecidos sintéticos, pela fragmentação de embalagens plásticas, por cosméticos e por inúmeros resíduos urbanos que acabam chegando aos sistemas de esgoto.

Grande parte dessas partículas já é retida pelas estações de tratamento convencionais. O problema é que uma quantidade significativa consegue escapar junto com a água tratada ou permanece concentrada no lodo gerado durante o processo.

Esse detalhe preocupa especialistas porque esses resíduos sólidos frequentemente são reutilizados como fertilizantes agrícolas. Dessa forma, parte dos microplásticos pode retornar ao meio ambiente por outro caminho.

A Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) já alertou que, sem melhorias nos sistemas atuais, a liberação de microplásticos provenientes desses lodos poderá crescer significativamente nas próximas décadas.

Por isso, aumentar a eficiência da remoção logo nas primeiras etapas do tratamento representa uma estratégia considerada bastante promissora.

Outro resultado importante observado pelos pesquisadores foi que a tecnologia continuou funcionando mesmo em condições mais próximas das encontradas em estações reais.

Normalmente, águas residuais contêm matéria orgânica, óleos, gorduras e diversos outros contaminantes capazes de dificultar processos de separação.

Nos testes realizados, entretanto, esses componentes não reduziram o desempenho do método. Em alguns casos, a presença de coagulantes convencionais até favoreceu a formação de partículas maiores, facilitando sua remoção.

Ainda não é uma solução definitiva, mas pode representar um avanço importante

Apesar dos resultados animadores, os próprios pesquisadores destacam que ainda há um caminho considerável até a aplicação em larga escala.

Os experimentos foram realizados em laboratório, utilizando tipos específicos de microplásticos e condições controladas. Antes que a tecnologia seja adotada comercialmente, será necessário testá-la em estações de tratamento operando continuamente, com diferentes vazões, misturas de contaminantes e variações naturais da água.

A RMIT University informou que o próximo passo será desenvolver parcerias com empresas do setor para validar o sistema em ambientes reais.

Essa etapa será decisiva para comprovar se a eficiência observada em laboratório pode ser mantida nas condições muito mais complexas enfrentadas diariamente pelas estações de tratamento.

Mesmo assim, o estudo traz uma contribuição importante para o combate aos microplásticos.

Em vez de tentar eliminar partículas que já chegaram aos rios e oceanos, a proposta busca impedir que elas escapem do sistema de tratamento e retornem ao meio ambiente.

Isso não resolve, por si só, o problema da produção crescente de plástico nem substitui políticas de redução de resíduos. Porém, acrescenta uma nova barreira em um dos pontos mais estratégicos do ciclo da contaminação.

Em um cenário em que não existe uma solução única para os microplásticos, tecnologias simples, eficientes e compatíveis com a infraestrutura existente podem desempenhar um papel fundamental para reduzir o impacto desse tipo de poluição nos próximos anos.

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